All made of stars                    


O bicho que me come por dentro um dia se chamou medo. Hoje é angústia, pura e simples angústia. Busco nas palavras de Clarice ou de Bukowski sentimento algum que possa me consolar: não as encontro em parte alguma, a não ser no gelo que se liquefaz em água no fundo do copo de bebida adocicada – isso tudo antes da uma da tarde. Os primeiros goles descem lembrando a garganta de que o consolo existe. A temperatura fria do líquido esconde sua verdadeira natureza, a de embriagar até mesmo os animais que de seus pequenos frutos se alimentam. Enquanto a cabeça viaja na direção de elefantes e girafas de outro continente, o corpo se ressente de sua localização atual. Busco o conforto da horizontalidade, não sem que os dedos ainda sejam capazes de continuar sua busca por formar frases que exprimam qualquer coisa. Como uma panela de pressão com a válvula quebrada, me espreguiço, esperando que o relaxamento dos músculos se extenda ao cérebro – que descanse. Não suporto a tortura na qual se traduz o esforço de ponderar o que poderia ter sido, o que poderia estar sendo, o que será no futuro, quando o futuro chegar. Antecipo-me ao futuro: quase sei o que dele virá, quase sei o que dele esperar. Quase sinto que tudo é ilusão. O quase permanece no fundo do copo, enquanto os cubos gelados vão derretendo e a bebida se resfria. Resfrio meus pensamentos. Por mais que exista uma porta, às vezes entrar pela janela é um alívio monstruoso.

Arrependimento que eu tenho é não ter me demorado mais cinco minutos no último beijo que você me deu. É não ter pedido para você repetir uma vez mais que me amava. É não ter demonstrado o que eu realmente senti quando você me disse que nunca deixou de gostar de mim - nem enquanto outro me fazia companhia, impedindo-o de estar mais próximo. Eu não me arrependo do nosso passado - aquele passado, que faz força para se fazer presente em todo seu lado sombrio. Não me esforço para deixar o passado de lado, teimo em dizer que ele me serve de alerta; minha certeza da impermanência trai minhas tentativas de me preservar: nunca mais o que já foi, talvez um dia o que ainda não é, provavelmente nunca mais o que poderia ter sido. Não tenho alternativa: sempre me entrego àquilo que me arrebata o coração. E meu coração é, neste momento, pura espera. Inspirar e respirar, enquanto o tempo passa. Enquanto o vento bate, soprando todas a aflições para longe. Me carregando para mais perto de você, onde quer que você esteja. Seus olhos que brilham infância, seu sorriso que é pura promessa. Suas mãos, em mim. Nós.


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Brilho Próprio

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