All made of stars                    


O bicho que me come por dentro um dia se chamou medo. Hoje é angústia, pura e simples angústia. Busco nas palavras de Clarice ou de Bukowski sentimento algum que possa me consolar: não as encontro em parte alguma, a não ser no gelo que se liquefaz em água no fundo do copo de bebida adocicada – isso tudo antes da uma da tarde. Os primeiros goles descem lembrando a garganta de que o consolo existe. A temperatura fria do líquido esconde sua verdadeira natureza, a de embriagar até mesmo os animais que de seus pequenos frutos se alimentam. Enquanto a cabeça viaja na direção de elefantes e girafas de outro continente, o corpo se ressente de sua localização atual. Busco o conforto da horizontalidade, não sem que os dedos ainda sejam capazes de continuar sua busca por formar frases que exprimam qualquer coisa. Como uma panela de pressão com a válvula quebrada, me espreguiço, esperando que o relaxamento dos músculos se extenda ao cérebro – que descanse. Não suporto a tortura na qual se traduz o esforço de ponderar o que poderia ter sido, o que poderia estar sendo, o que será no futuro, quando o futuro chegar. Antecipo-me ao futuro: quase sei o que dele virá, quase sei o que dele esperar. Quase sinto que tudo é ilusão. O quase permanece no fundo do copo, enquanto os cubos gelados vão derretendo e a bebida se resfria. Resfrio meus pensamentos. Por mais que exista uma porta, às vezes entrar pela janela é um alívio monstruoso.


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Brilho Próprio

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