All made of stars                    


Cenário: Livraria Cultura do Conjunto Nacional

Uma mulher na casa dos 30 toma café, enquanto folheia uma revista. Alterna sua atenção entre a xícara fumegante, a publicação e o celular, que apita o tempo todo. Sem que ela perceba, um homem também de seus trinta e pouco a observa, da bancada onde ficam as publicações de idioma estrangeiro.

A área do café está lotada e diversas pessoas anseiam por um lugar vazio. É uma manhã chuvosa, e mentes inquietas precisam de uma boa dose de cafeína para conseguir suportar o dia útil sem diminuir seus índices de produtividade. Quando uma mesa próxima à da moça fica vaga, ele se apressa em ocupar o lugar, sem notar os olhares furiosos de duas moças que se precipitavam na direção dos assentos livres.

Ele fita o cardápio, desinteressadamente. Não desvia sua atenção da morena de cabelos no meio das costas e algumas tatuagens espalhadas pelo corpo. Ela dá um gole do café, manuseia o celular e arruma uma mecha de cabelo atrás da orelha. Finalmente parece notar que é observada e volta o olhar na direção dele, que sorri. Ela sorri de volta, com a expressão curiosa. Ele é bonito, com seus cabelos mais compridos do que o corte original deveria requerer; grandes olhos azuis piscam na direção dela.

Ele _ Me desculpe, mas tenho a nítida sensação de que te conheço de algum lugar.

Ela _ Ah. Isso acontece bastante. Acho que tenho um rosto bem comum.

Ele _ Eu não diria isso. – Mais um sorriso.

Ela ergue as sobrancelhas, entre espantada e divertida. Não é sempre que recebe um elogio nas entrelinhas de um bonitão na Livraria Cultura – onde os bonitões costumam, mais cedo ou mais tarde, elogiar nas entrelinhas outros bonitões.

Ele _ Sério mesmo. Estava ali dando uma olhada nos livros e não conseguia parar de olhar prá você. Acho que a gente se conhece.

Ela _ De onde? Na época da faculdade sempre me confundiam com uma menina chamada Renata. Teve uma época em que eu sabia até que ela estudava na FAAP e que namorava um cara que jogava golf. Isso ficou marcado na minha cabeça: que tipo de adolescente joga golf?

Ele _ O tipo que tem dinheiro suficiente prá andar num carrinho elétrico, além de uma ótima mira. – Ele sorri, voltando os olhos na direção da cadeira vazia na mesa onde ela está sentada. – Posso?

Ela pensa durante meio minuto e sorri de volta, assentindo. Fecha a revista, colocando-a de lado. Que mal pode ter uma conversa jogada fora, enquanto faz hora para o próximo compromisso e a chuva cai lá fora, em um prenúncio do péssimo clima do final de semana? As duas moças que aguardavam uma mesa livre quase se jogam sobre a recém liberada. Olham feio na direção dos dois.

Ele _ Muito prazer, meu nome é G.

Ela _ Oi, sou a F. – O homem estende a mão; o cumprimento é firme. Ela sempre se encanta quando um desconhecido a cumprimenta “shaking hands” - muito mais adequado do que aproximar o rosto e colar bochechas, beijando o ar. Ele afasta a cadeira vazia e se senta; usa um perfume suave, que a lembra da adolescência e do primeiro namorado.

Ele _ Eu comentaria que o tempo está terrível e que o final de semana vai ser tenebroso, mas realmente não consigo parar de pensar como seu rosto me é familiar. Você tem que me ajudar nisso.

Ela _ Sério mesmo? Sou péssima para lembrar nomes, mas geralmente sou uma boa fisionomista.

Ele _ Eu sou ruim nas duas coisas, mas essa sua tatuagem me é muito familiar. O que você faz?

Ela faz um breve resumo de sua vida profissional. Diz no que se formou, e no que está trabalhando agora. Também conta que está ali apenas matando tempo livre, já que estava nas redondezas, a chuva a pegou desprevenida e ainda tem uma hora até o próximo compromisso. Ele ergue uma sobrancelha, parecendo surpreso, mas ela está acostumada a isso: não trabalha com uma coisa muito comum, e a maioria das pessoas tem a mesma reação quando a ouvem falar sobre seu trabalho. Lhe estende um cartão, costume recém-adquirido e que tem lhe rendido alguns atendimentos esporádicos. Quando conta que morou do outro lado do mundo ele solta uma risada.

Ele _ Rá! Eu viajei para lá dois anos atrás. Não é possível que seja de lá que te conheço.

Uma suspeita se forma no interior dela. Se ela imaginá-lo de cabeça raspada, quase consegue visualizá-lo em outro cenário, com um cigarro entre os lábios e um copo de Mojito nas mãos. Procura insistentemente pelo rótulo da gaveta de onde a lembrança emerge, mas não encontra nada.

Ele _ Estive na cidade entre fevereiro e maio de 2010.

Ela _ Eu fiquei lá de março a setembro... Mas seria muito esquisito se isso acontecesse, porque me lembro muito bem de todos os brasileiros que eu conheci na minha temporada lá, e inclusive mantenho contato com a maioria deles.

Fazem um breve relato de suas experiências do outro lado do planeta. Ele é advogado e trabalha na área de direito sobre logotipo. Tem 34 anos, mora em um bairro nas proximidades mas viaja muito a trabalho, tendo acabado de voltar de uma temporada de dois meses na Itália. Comenta que já passou três temporadas no país do macarrão, e que fala italiano fluentemente.

Como uma bomba que começa a estourar e não pára mais, a lembrança é reativada na cabeça dela. Ele, a cabeça raspada, os olhos claros, o cigarro entre os lábios – o copo de Mojito na mão. A paisagem que se forma atrás dele é um bar de Jazz, onde ela esteve algumas vezes na companhia de amigos, do outro lado do globo. Naquela noite em específico estava sozinha – uma das noites solitárias de sexta-feira em que ela decidira que estava quente demais e claro demais para ficar sozinha no seu dormitório, escutando “Pro Dia Nascer Feliz” e morrendo de saudades de casa. Recordou do barulho das bolas de sinuca batendo umas nas outras, que atraíram sua atenção na direção da mesa de bilhar onde alguns rapazes disputavam animados uma partida. Quando perceberam que ela os fitava, comentaram alguma coisa a seu respeito em um idioma que ela reconheceu como sendo italiano. Buscara, em outras gavetas da sua memória, aquela que continha as lições gramaticais do idioma, que estudara por mais de dez anos no colegio que frequentara a vida toda. Não havia conseguido.

Uma voz havia lhe dito, vinda do lado direito, em inglês: “Eles estão dizendo que você é bonita e que deve ser australiana”. Ela havia respondido que geralmente achavam que ela era italiana, mas que na verdade era brasileira. Ele havia rido muito e dito que também era brasileiro, e haviam iniciado uma conversa animada em português. Infelizmente, menos de cinco minutos depois, uma chinesa bonita voltara do banheiro e sorrira, provocante, na direção dele. Beijara-o na mais clara intenção de demonstrar que ele já estava acompanhado. Ele ficara sem graça; ela virara o copo de cerveja escura “like there was no tomorrow”. O casal se afastara.

Não se lembrava muito mais daquela noite – apenas que conhecera uma cubana e dois australianos e que, juntos, haviam ido a uma casa noturna do outro lado da cidade, onde tubarões nadavam em um aquário enorme que refletia sua imagem enquanto ela tomara mais uma dose de vodka – ou teria sido um Cosmopolitan? Havia mais uma lembrança – de tê-lo cruzado na mesma casa noturna, desta vez na companhia de uma alemã muito loura e tatuada. Pelo visto não havia sido apenas nas suas tatuagens que ele reparara. Lembrava-se também que ele havia pegado seu numero de telefone, prometendo telefonar-lhe no dia seguinte. Ela havia dado o número – sentia-se sozinha e mesmo a companhia de um brasileiro mulherengo no Oriente era, algumas vezes, melhor do que nada. Mas ele nunca telefonara. E, depois de migrar para uma outra casa noturna na companhia de seus mais novos melhores amigos de infância e de dois japoneses que haviam se unido ao grupo, ela havia se esquecido completamente dele e da promessa do telefonema.

De volta ao café na Livraria Cultura: continuam a conversa. Ela o fita de um jeito diferente. Ele continua encafifado – tem certeza de que se conhecem, mas ela é evasiva. O mundo girou, ela não é mais aquela que se sentia sozinha e que preferia a companhia de qualquer um à sua própria. Quando a hora de ir embora chega, ele se oferece para pagar-lhe o café; ela aceita, assim como também aceita manter contato - afinal, seu cartão já estava dentro do bolso da camisa chique que ele usava. Despedem-se não mais com um aperto de mãos, e sim encostando as bochechas e beijando o ar. Não sente mais o perfume que a lembrou do primeiro namorado.

Ele diz que vai ligar, mas ela sabe que ele nem sempre cumpre suas promessas.


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