All made of stars                    





Eu gosto de você porque você é sincera. Você não tem medo de mostrar quem você é, mesmo que não saiba muito bem quem é, de fato. Eu gosto da sua coragem, de se assumir, de contar da sua vida e da sua historia. No seu lugar, não sei se conseguiria ser igual. Eu vivo pegando o meu passado e passando uma maquiagem prá ver se fica mais bonito; daí, exibo para as pessoas prá ver se consigo obter delas o reconhecimento que eu mesma não consigo obter de mim. Eu gosto dos seus olhos, que dizem mais do que mil palavras. Mas os seus olhos têm um brilho doentio, que não é seu de fato; é este brilho que distorce a realidade, e é por isso que você não enxerga o mundo como ele é. É como se o próprio mundo brilhasse demais – e aí você veste óculos em tons de cinza, que tiram um pouco do colorido do mundo. Mas eu gosto de você porque tem coragem de dizer que este mundo pode não ser tão colorido quanto as pessoas dizem que é (“ela acreditava em anjos e, por isso, eles existiam” – Clarice Linspector). Eu gosto quando você tenta ajudar alguém. Você consegue ser realmente inspiradora, não importa cmo você realmente se sinta em relação à sua vida – não importa se você tem uma equipe multidisciplinar ou não, você aconselha aos outros que a tenham. Você recomenda que procurem um psiquiatra, mesmo que deteste a sua; você aconselha a psicoterapia, mesmo que tenha a certeza que ninguém no mundo vai te entender e te ajudar. Eu gosto de você porque gosto de contradições. Porque eu gosto de paradoxos. Porque eu não lido bem com os meus próprios paradoxos. Eu gosto de você... Porque você me faz lembrar de mim, de uma fase negra da minha vida, de uma fase em peto e branco, de desesperança... E se eu pudese voltar no tempo e me dar colo, cuidar de mim, ser mais amena, mais suave... eu seria. Mas eu não posso. Não posso voltar no tempo, fazer diferente – mas posso te ajudar a se salvar, eu sei que posso. Posso te ajudar a ver que o mundo é muito mais do que já viveu até agora. Posso te contar dos lugares que eu já fui, das pessoas que conheci, dos homens que amei, dos amigos que foram minha família em uma época em que a familia não era minha amiga. Posso te contar que aprendi a amar aqueles que eu odiava. Posso tentar te convencer que você é linda, que seu corpo é um templo, que seu cabelo brilha... Mesmo que você pese 37 quilos, seus dentes estejam descalcificados, seus cabelos quebradiços e você se ache gorda e feia. Eu gosto de você porque eu me vejo em você. E se eu conseguir te ajudar... vou estar fazendo por alguém o que eu gostaria que tivessem feito por mim; porque eu nunca tentei o suicídio, mas não faltou vontade. Eu queria ter sabido, naquela época, como seria o meu futuro – teria sofrido bem menos. Eu queria que tivesse me enxergado como eu era: linda, inteligente, engraçada... Eu era digna de receber amor dos outros! Mas eu não fiz nada disso, e fui infeliz por anos, sem necessidade. Eu quero que você seja feliz, que saiba que tudo isso que você sente vai passar, que a sua vida tem valor, que pode ser muito mais do que está sendo... basta que você se dê a chance. Basta isso: que você se dê a chance.


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Brilho Próprio

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