
Eu tenho sentido uma saudade danada da China. Não sei bem do quê; acho que de tudo. Do céu cor de rosa de Shanghai. Das pessoas andando nas ruas, sempre apressadas, sem nunca se trombar umas com as outras. De entrar nas lojas cheias de cacarecos e negociar o preço até do remédio prá dor de barriga. Da lua que de vez em quando se via em meio ao céu nebuloso. Do metrô indo e vindo, do vento agitando os meus cabelos quando o trem chegava na plataforma. O vento que agita os meus cabelos nas plataformas de Sampa não é igual – aqui, nada é igual.
Sinto a falta de estar em um lugar que eu conheço, mas nem tanto. Daquela sensação de virar numa esquina e tudo, tudo se perder. O que será que tem mais prá frente, logo depois daquelas mesinhas na calçada? Logo depois daquela placa que eu não entendo, daquele casal que não usa alianças mas veste camisas pólo iguaizinhas? O que será que vem depois?
Acho que é disso que eu sinto falta: de não saber o que vem depois. Claro que isso nunca se sabe – a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos, já dizia Lenon. Mas aqui tudo anda me parecendo previsível. As ruas são conhecidas demais, não atiçam as borboletas que moram dentro do meu estômago. A língua que eu ouço ser falada me permite entender tudo, ando sentindo falta daquilo que eu não entendo: o que eu não entendo eu posso criar, inventar do jeito que me é mais belo. Mais poesia e menos realidade, é disso que sinto falta.
Teve aquele dia em que eu peguei o metrô errado e fui parar em outra cidade. Aquela vez em que quase tive que dormir na rua porque a estação de metrô fechava mais cedo e eu não sabia. Aquele dia em que eu fiquei na dúvida se deveria ou não ir à casa de um cara que eu mal conhecia – e que veio a se transformar no meu melhor amigo. O dia em que eu tive uma dor de cabeça tamanho família e pessoas queridas se reuniram no meu dormitório para me ajudar – e, bem ao estilo brasileiro, tudo acabou em pizza.
Mais do que tudo, sinto falta de mim. De como eu me sentia naquelas terras. Da liberdade que eu tinha de ser o que eu quisesse, de ter o que tivesse, fazer o que fizesse. De acordar para um novo dia sem saber como ele iria terminar. Das paisagens eu nem falo – nem dos lagos, nem dos prédios, das montanhas ou das cores chamativas nas calçadas. De viver a vida como se não houvesse um amanhã. Nunca, nunca um amanhã. Nunca mais o que não fosse, para sempre, dentro de mim. Simples assim.
Acho que sempre vou guardar em mim um pedaço de tudo aquilo. Só falta descobrir onde aquilo tudo está.





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