All made of stars                    


Nunca contemplei a solitude, tampouco a solidão. Nunca almejei caminhar sozinha. Nos meus sonhos antigos, sempre havia mãos entrelaçadas às minhas diante das mais belas paisagens do mundo. Sempre havia um sorriso em minha direção, um ombro no qual recostar para descansar a cabeça pesada. É certo: nunca priorizei este ombro, nunca deixei de caminhar mundo a fora por estar de mãos vazias. A solidão não me desagrada, às vezes até consola, assim como conforta a visão de uma única árvores no topo de uma montanha, a contemplar o mundo de lá de cima. Consola e conforta, mas algumas vezes sinto falta de alguém com quem possa dividir as emoções que vêm diante da contemplação do infinito que se descortina dia após dia. Não sou carente: não preciso de alguém que me reafirme o tempo todo o quanto fantástica eu sou, o quanto sou merecedora de amor. Não sou merecedora e nem desmerecedora de nada, não sou meu ego, nem minha mente, nem meu coração. Não sou esta a quem meus pais deram nome, nem esta que cuida de doentes, nem aquela que já tanto magoou ou foi magoada. Minha verdadeira essência não é esta que se mostra aos outros, quase se esconde de mim mesma. Aparece vez ou outra refletida na superfície de um lago azul entre montanhas verdes. No brilho dos olhos de uma senhora praticando taichichuan em um parque da China. No sorriso da criança que me encara quando entro em mais um ônibus, que mais uma vez vai me levar para a estrada. Me dou conta: minha vida tem sido a estrada e todas estas paisagens ao meu redor. Tudo, todos, partes de mim mesma. Tudo ao meu redor. Não sou eu, sou você, sou aquela que infringe a lei logo depois daquela esquina. Sou o pássaro que mergulha no mar e pesca um peixe, o grão de areia do deserto onde minha irmã esteve um dia, sou o vinho que uma amiga comentou ter bebido na Turquia. Sou todas, sou muitas: sou nada. E ainda: a solitude às vezes assola como um ataque de tosse de um tuberculoso; vem em ondas, sufoca, invade os olhos e escorre, como lágrimas. Eu me transformo na lágrima: me esvaio em mim mesma e me permito cair.


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Brilho Próprio

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