Quando quase ninguém mais acreditava, eu acreditei. Enquanto todos te acusavam, julgavam, condenavam e puniam, eu te defendia. Julguei ser verdadeiro o brilho molhado que vi nos teus olhos – como ainda me enganam, os olhos? Me permiti te conhecer mais de perto, te tocar e deixar que a sabedoria da ponta dos meus dedos te agregassem valor absoluto. Dentro de mim você cresceu, tal bexiga quando alguém a assopra; eu te inflei, hoje vejo. Que quem adubou seu solo fui eu e minhas mãos ingênuas, que se deixam levar pelos ventos que transformam folhas caídas de árvores em borboletas. Deixei que meu corpo decidisse por mim, e você fez dele sua morada. Se espichava sobre mim tal qual criança em rede de praia – você me consumia. Nós éramos iguais. Eu me joguei de cima das nuvens na sua direção, e você na minha. Nenhum dos dois tinha os pés fincados no chão; perdemos tempo demais caindo, distraídos por buscar desenhos nas mesmas nuvens que deixamos para trás. Ficamos para trás: eu, você e o rascunho dos nossos sonhos. Eu não te culpo; responsabilizo a nós dois. Você é quem é, bem como sou quem sou. Eu sou o que eu sou e dificilmente vou querer menos que quase tudo, sou assim uma boca aberta o tempo todo na direção do mundo, quero ser preenchida pelo que vem na minha direção; eu quero voar, mas você tem raízes. Você me pede para estacionar, fumar um cigarro, esperar que o sol se ponha. Eu me nego – esperar para viver é inadmissível. Tudo que começa tem um fim, e este é o nosso. Me permito voar para longe de você sem culpas nem arrependimentos: eu morro na sua boca assim, como as últimas estrofes de uma canção de ninar que se esqueceu de existir.





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