
Todos os meus sonhos, dentro de uma garrafa. Uma carta escrita à mão é raridade nos dias de hoje, e eu guardo a minha dentro de uma fantasia amarrada com barbante, protegida do sal do mar, do calor do sol e do sabor do vento. Minha garrafa repousa em tranquilidade dentro do meu coração. Ultimamente tudo tem sido risos à minha volta, todas aquelas palavas em preto e branco no papel me aguardando, como uma promessa. Olho para os lados e o que vejo são braços surgindo protetores à minha volta. Gosto do som que as palavras ganham na sua boca; a cadência que cada palavra assume cantada no seu sotaque me faz rir do que é rebuscado: ah, se as pessoas convivessem em paz com a simplicidade! Não me importo com o que dizem as bocas daqueles que se divertem com o meu passado: defendo aquilo que é meu com unhas e dentes e nada temo que não seja digno de admiração; apenas o grandioso me chama a atenção, e enalteço o sentimento com a força de um abraço apertado, ao som de “tantas saudades eu senti”. As fantasias me distraem enquanto entro no metrô apertado; ninguém percebe o brilho dos meus olhos por detrás dos óculos escuros – se enxergassem o que guardo na mente veriam o contraste que a areia branca faz com o azul do mar do lado de lá da Ilha. Suspiro: a conquista tem sido diária, em recompensa pelas boas ações praticadas em afirmações sinceras; o que tem nome eu não quero para mim, me abstenho do que é mundano para viver em meio a fantasias de um sonho longo. Me recuso à superficilidade, que facilmente conduziria para a vala comum aquilo de nós que mal nasceu. Há de se cuidar daquilo que vale muito. Há que se proteger o que ainda é verde. Há de se ter tempo para admirar o que é belo: “Tudo leva um tempo para amadurecer” (Willian Shakspeare).





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