All made of stars                    




Das coisas que eu nunca quis, você é a minha atual preferida.

Nada pode ser mais libertador do que não te querer: assim você permanece solto no ar, suspenso entre uma fantasia minha e outra que não se cansam de te incluir entre meus atuais personagens favoritos. Com você eu invento histórias que nunca se realizarão – não diante da visão da largura do teu peito, onde me esvaio e ensaio o meu papel predileto. Não há querer direcionado à franqueza do teu nome, que tantas vezes significou vilania nos meus pesadelos mais sombrios. Quando tudo o que te cobria era escuridão, eu não tinha a percepção do formato do seu corpo se avolumando ao meu lado e dos teus braços parecendo crescer à minha volta.

Há certa fragilidade em mim que faz temer partir em cacos diante do peso do teu corpo. Tuas mãos calejadas de fortes dedos facilmente me subjugariam – minha resistência não seria nada diante da tua determinação. Enquanto viajo no vazio, cenas inventadas me invadem na visão das rugas ao redor dos teus olhos tostados de sol. A camada de sal que reside permanentemente na tua pele leva minha imaginação na direção do teu gosto, enquanto você insinua me carregar com você mar a fora, peixes fugindo da ameaça da tua presença. Quando sabe que tuas palavras ja ganharam forma na minha imaginação você se cala; me abandona na fantasia que não é só minha.

Um olho teu pisca na minha direção e tudo o que sou é vontade; de quê, não sei. A ausência de desejo acarreta na falta de coragem, e eu nem precisaria tê-la: você é assunto vetado, inimigo de estado, protegido pelo programa de proteção de testemunhas dos crimes cometidos na minha adolescência. Tempos em que você era o barco que ancorava trazendo alegria artificial a pessoas que levavam as tuas previsões dos ventos a sério: nunca as acreditei. Nunca fui destes que comemoravam a tua chegada, nunca flertei com o risco inerente à tua presença.

Lábios se movem: agora você? Não aprende! – dizem os que nada sabem. Quando vê e decide que quer, tem, falam as bocas que conhecem o passado: incômodo que é tua presença à minha volta. Eu me regojizo. Em nada escondo de você minha essência mesquinha e egocêntrica de quem quer o prazer e só, típica de escorpiana de terceiro decanato: tua natureza é minha semelhante. Entre uma palavra e outra: a surpresa se esconde no silêncio das entrelinhas – me deixo morrer nas ausências de verbo, que te faz saber o que sou.

Nada me faz ansiar pela transformação do imaginário em real: fazê-lo seria eliminar você de dentro de mim. Nada me agrada mais que momentos em que a luxúria se manifesta em desejos inconfessáveis. Tanto está envolvido; nada parece importar. É como se o teu cheiro de mar me inebriasse: nada me constrange, nem mesmo a presença do passado em carne e osso ao meu lado, de quem você faz troça. Você ironiza minhas escolhas passadas, faz piada do antes de ontem da minha vida. Agora aprendeu, você diz. E se nega a me acompanhar à esquina dos encontros durante a madrugada, pois sabe que o que é para ser de nós não merece testemunhas. O que é para ser de nós não tolera olhares de soslaio, que nos mundificariam

Parecemos ser feitos do mesmo barro, mistura inédita de terra, água e vento desta mata que foi nosso útero. Fomos elaborados a partir da mesma receita: um pouco de iodo e muita pimenta – e sabemos o ser, explosivo. Você espanta o meu passado de perto, conhece a tua força perante aqueles para os quais você ainda é promessa de escuridão. Enquanto isso me faz acompanhá-lo, ri dos meus receios, zomba do meu cuidado, quase me faz tocar com os dedos a raiz dos cabelos na tua nuca. Eu digo, quero que você me cale.

Encontros em uma história repleta de porquês e senãos.
O que há é carne. É sangue e suor. É a proteção de todos os meus medos aninhados nos músculos do teu braço talhado pelo puxar da rede. São lágrimas no momento de êxtase.
De todos eles.


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Brilho Próprio

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