All made of stars                    


... e eu só tenho a agradecer.

ps _ que eu seja capaz de reconhecer as mensagens, independentemente dos mensageiros.

ps2 ­_ que eu me transforme no exemplo vivo daquilo no que acredito.

ps3 _ e desejo o mesmo para vocês :)

Não conta prá ninguém, mas conheci um mocinho daqueles que me fazem perder o fôlego e ficar tímida, o coração acelerar dentro do peito e eu voltar a acreditar que, afinal de contas, o amor pode ser lindo sem ser sacana, gostoso sem ser neurótico e tranquilo sem ser um completo tédio.

E ele ainda tem um trabalho decente, um automóvel que funciona e sonha em morar na praia (a casa ele já tem, bem pertinho da minha).

Tô noiva ;)


“Se sobrevives, se persistes,
Canta, sonha, embebeda-te.
É o tempo de frio: ama, apressa-te.
O vento das horas varre as ruas, os caminhos.
As árvores esperam: tu não esperes.
Este é o tempo de viver, o único”.
Jaime Sabines

hoje eu contei. até as 18h00 foram 185 as vezes em que eu falei a palavra EU (e só até agora, neste post, foram mais 3). não sei de onde tirei essa conta maluca. estava conversando com minha mãe hoje de manhã quando de repente me incomodei com o fato de dizer tanto eu, eu, eu, que coisa mais chata tanto EU assim no mundo. daí comecei a contar. e até agora há pouco foram 185 eus. nem eu, que sou eu, sou eu tanto assim. me incomodou. uma coisa assim, meio auto-referente, meio ego desgovernado, meio auto-afirmação. vou tentar desistir dos eus, pelo menos até o final do dia, o que me parece um pouco difícil posto que o programa da noite é enfrentar com unhas e dentes o shopping center em busca dos últimos mimos de natal. engraçado pensar em tudo isso justo no dia em que resolvi fazer meu jejum vata-kapha mensal. pode ter super a ver. ou não. sei lá.

Então o que é que você esperava?

Um aperto de mão, beijo ou abraço? Sorriso cordial de “ei!, quanto tempo!”? Perguntas sobre sua vida, “e aí, como andam as coisas”? Lágrimas na big scene de devolução da chave da minha casa? Que eu oferecesse um café, uma rosquinha, meu corpo talvez? Há!

Eu ainda sinto raiva, mas hoje em dia ela já vem acompanhada de desprezo e pena, o que é bom, em se tratando do meu processo de letitgo. Porque depois vem o descaso, quase perdão, quase esquecimento. E depois disso vem um enorme nada.

Você disse que nunca seria mais um dos meus falecidos.
Que não se matasse então.

Oras pois.

Pois foi então que, em 5 minutos, Fulana ressuscitou um relacionamento que morreu há 10 anos.

Voltou a dar o ar da graça há 9 anos; mostrou sinais vitais estáveis há 7; uma fratura externa séria o colocou em risco há 6 anos; teve uma parada cardiorespiratória há 5; sofreu um AVC há 3 anos e meio. Desde então, mantinha-se em estado vegetativo, coma profundo, respirando com ajuda de aparelhos (MSN e Orkut, para ser mais exata).

E Fulana, com um telefonema de 5 minutos em que o convidou para acompanhá-la em um show, fez com quem todos os sistemas voltassem a funcionar adequadamente. Por quanto tempo, não se sabe.

Senhoras e senhores, apresento-lhes...
O pretê-bumerangue.

... and I'm a tiny penny rolling up the walls inside.


Eu não gostava de Woody e mudei de idéia, como já disse antes.

E beibe Diego já tinha dito que era bom, mas Vicky Cristina Barcelona é um filme prá varrer prá debaixo do tapete qualquer pensamento ou opinião negativa em relação a Woody que ainda reste no mundo (se é que alguém, além de mim, algum dia já teve uma opinião negativa em relação a ele).

A história é a respeito da viagem de férias de duas amigas americanas para Barcelona, e as repercussões da viagem na vida de ambas. As duas são totalmente diferentes e opostas entre si: enquanto Vicky é a personificação do pensamento, da lógica, do planejamento e método, Cristina é doidinha, irresponsável, tem humor flutuante e nunca – NUNCA – na vida soube definir exatamente o que quer, apenas o que NÃO quer.

Não preciso dizer com qual das duas me identifiquei, preciso?

Confesso que, em tempos de Lei da Atração e do Segredo, sempre me senti um pouco culpada por não conseguir verbalizar exatamente meus desejos e metas, como se a minha falta de certeza em relação ao que eu quero representasse uma ameaça enorme de fracasso. Como conseguir coisas boas se até hoje não sou capaz de definir exatamente o que desejo para a minha vida?

Então o novo filme de Woody veio para mim como um acalento, um conforto, um carinho na minha instável personalidade cheia de vontades imperiosas que vem e vão. No mundo de hoje, que é bem maior do que era há cem anos, continuarei a desconfiar dos que afirmam com muita veemência saber exatamente o que querem. Estas pessoas são, para mim, como cavalos usando cabresto – não podem olhar para os lados que se desorganizam e se perdem das próprias convicções.

Já quem não sabe o quer quer e sim o que NÃO quer parece, a meu ver, partir na frente. Pessoas assim fazem de bússula o coração, atentas aos próprios sentimentos de desconforto que exigem uma correção de rota. Super okei, quem não sabe o que procura pode até não reconhecer de imediato quando encontra; mas certamente vai aprender e se divertir muito mais, a cada acidente de percurso.

E não é disso, afinal, que se trata a felicidade?

Em seu sonho ela caminhava pela praia, completamente nua. A princípio não se sentia incomodada com a própria nudez, muito pelo contrário, orgulhava-se dela até. Nada parecia fazer mais sentido para ela do que estar nua naquela praia, sentindo a brisa fresca da manhã beijar seus cabelos e as ondas frias tocarem-lhe as canelas. Olhava para a frente, para os lados e para trás, sentindo-se incrivelmente feliz e animada.

De repente, sem mais nem menos, ela o via sair de trás de uma árvore, andando sorridente na sua direção. Ela então se sentia envergonhada por estar nua, ali na praia, e procurava ao redor algum lugar para se esconder ou algo com o que se cobrir. Ela então corria para dentro da água, mas por mais que corresse simplesmente não afundava, a água continuava na altura das canelas e ela não conseguia sequer se afastar dele.

Um sino soava ao longe enquanto ela corria, mas ela não lhe dava atenção e coontinuava correndo, correndo, correndo... E o sino soou mais uma, duas, três vezes... Até que ela acordou e percebeu que o sino na verdade era do portão de sua casa, que anunciava um visitante. Correu até lá e perguntou quem era, ao que ouviu em resposta:

- O amor da sua vida. E trazendo comida!

Levou um susto com a resposta, abrindo o portão cuidadosamente.

- Eu não quero comer – foi a única coisa estúpida que conseguiu dizer, ao que ele não deu a menor atenção.
- Como se alguma coisa do que você me diz não entrasse por um ouvido e saísse por outro... Anda, abre o portão. Caramba, eu toquei tantas vezes a campainha que já estava chamando a polícia para ver se você não estava morta.
- Eu estava dormindo – disse ela, enquanto fechava o portão e o via caminhar de modo absolutamente seguro no caminho até a entrada da casa, desviando do cocô dos cachorros e das poças de água como se andasse por ali todos os dias.
- Ah, e sonhando comigo, aposto – disse ele, puxando-a pela mão – anda logo, sai dessa chuva. Assim você vai ficar pior.

Andaram rapidamente até a porta de entrada da casa, a qual ele fechou atrás de si tranquilamente. Olhou para ela e disse, mostrando uma sacola de supermercado que trazia nas mãos:

- Adivinha?
- Pão de queijo, requeijão, manteiga e geléia? – arriscou ela, dobrando o cobertor jogado metade no sofá, metade no chão.
- Ná! Lazanha de frango com legumes... E eu achei que você fosse mais rapidinha.
- Geralmente eu sou, mas você tem que me dar um desconto por estar funcionando alguns graus de temperatura mais quente.
- Alguns graus de temperatura mais quente? Você é o quê, campeã na arte do duplo sentido? – Ele andou na direção da cozinha, deixando a sacola sobre a mesa de vidro – E pode deixar esse cobertor aí. Não precisa sair arrumando a casa inteira só porque eu estou aqui.

Ela largou o cobertor e caminhou na direção da cozinha. A visão dele, ali, andando tão a vontade pela cozinha, tirando as coisas de dentro das sacolas enquanto sorria na sua direção fizeram soar um sinal de alarme interno. E durante muito tempo ela ainda se questionaria se não deveria ter interrompido o processo natural das coisas naquela mesma noite, naquele mesmo momento, dando uma de louca e simplesmente expulsando-o de sua casa enquanto ainda tinha a chance.

Mas sempre tivera consciência de que era mais fácil um elefante passar pelo buraco de uma agulha do que ela obedecer a seus instintos.


Eu chegava no Joe’s Bar (o de NY, claaaaro), ia direto pro segundo andar e lá minhamelhoramigadetodasnomundo Amy Winehouse me esperava. Por incrível que pareça ela não estava bêbada, nem drogada e nem caindo pelas tabelas, muito pelo contrário: estava fabulosa e deslumbrante em um vestido de cetim vermelho, sentada em uma mesa cercada por drinks e homens igualmente fabulosos e deslumbrantes.

E aí, como sonho é sonho e no meu sonho quem super manda sou eu, ela se levantava, vinha na minha direção e dizia, com aquele sotaque cockney: “Flavia, chick, you can’t imagine who’s here, I was just dying to introduce you... Zalon!” (sim, porque no meu sonho ela estava dying prá me apresentar alguém e ainda me chamava de chick, porque a gente devia ser supersupersuperamigasmesmo, tipo BFF).

De repente Zalon se levantava, aquele Deus do Ébano, duas cabeças e meia mais alto do que eu (que estava em saltos poderosos), aquele peito de ferro pronto a me proteger do que quer que eu precisasse ser protegida, aquele sorriso de matar, elegantéééééérrimo, cheirosééééérrimo e todos os outros ééééérrimos aos quais tem direito.

E eu tenho certeza de que ele teria ficado tão impressionado comigo quanto fiquei com ele, se minha mãe não tivesse me acordado just in time prá ir dormir na cama.

SHIT!

PS – Prá quem não sabe, Zalon Thompson é um dos vocalistas-dançarinos da Amy – aquele que está sempre ajudando a moça quando ela quase cai – vide Rock in Rio Lisboa – e a abraçando quando ela faz um show realmente ótimo. Tem coisa dele aqui e aqui, e pode se cadastrar que o moço retorna de verdade – é hoje que não durmo!

Se você encostar em uma pessoa do seu ambiente profissional, hierarquicamente superior a você, que tenha o par de olhos acinzentados mais lindo que você já viu na sua vida e der choque, SAIA CORRENDO.

Se você encostar em uma pessoa do seu ambiente profissional, hierarquicamente superior a você, que tenha o par de olhos acinzentados mais lindo que você já viu na sua vida, o toque der choque e você (burra, burra, burra - e o que ela é mais? BURRA!) não sair correndo, aguente as fucking consequências, não se faça de vítima da situação e engula o choro.

E sempre – SEMPRE! – que puder supervisionar seu trabalho com OUTRA pessoa que NÃONÃONÃODEFINITIVAMENTENÃO dê choque e nem tenha LINDOSLINDOSLINDOSOSMAISLINDOS olhos acinzentados, o faça.

O ministério da saúde adverte.
Juro.

Nada mais aconteceu naquela noite a não ser ter colocado a bicicleta no carro dele e ter voltado de carona para casa. Na hora de se despedirem ele não tentou nem um beijo, nem um abraço mais demorado, absolutamente nada. E ela foi dormir pensando nele, oscilando entre a preocupação e a esperança de que as palavras dele se mostrassem verdadeiras.

Sempre o considerara um homem bonito, interessante e inteligente, por mais infantil e bobo que às vezes pudesse parecer. Por mais homem-problema que ele se mostrasse, namorando três, às vezes quatro mulheres por ano, desfilando com elas pelas ruas de mãos dadas e afirmando a todos que aquela sim era a mulher de sua vida, a futura mão de seus filhos, com quem envelheceria junto. Tudo isso para, alguns meses depois, repetir a mesma ladainha a respeito de outra. Mais de uma vez ela olhara a cena dele falando sobre mais uma mulher, reparando no sorriso contente da menina que ele trazia pela mão, sentindo pena de ambos.

O conhecia desde a adolescência e, de certa forma, orgulhava-se por nunca ter se envolvido com ele, o que já havia acontecido com todas as mulheres da sua idade - na verdade também com a mais velhas, e as mais novas, evidentemente. Mas não podia negar que nutria uma secreta curiosidade a seu respeito e a respeito dos motivos pelos quais todas as outras mulheres que conhecia parecerem não possuir anti-corpos contra ele. E à respeito também do porquê ele ser assim do jeito que era, inconstante, volúvel – enfim, os motivos de ele reunir exatamente as características que sempre estavam presentes nos homens errados que ela escolhia: parecerem precisar desesperadamente de ajuda, de salvação e de socorro para conseguirem se envolver de verdade com alguém, virarem adultos de verdade e deixar de serem homens problemáticos e fodidos como eram quando ela os conhecera.

- E então? Pão de queijo? Tenho requeijão, manteiga e geléia. Duvido que você encontre alguém com mais opções do que eu em uma terça-feira chuvosa como essa.
- Consigo pensar em pelo menos 5 pessoas com mais opções do que as suas – ela respondeu, obedecendo ao vício de acabar com a pretenção dele sempre que ela dava as caras.
- Verdade? – ele pareceu pensativo e frustrado – Poxa vida, você precisa me apresentar seus amigos.
- Minhas amigas, na verdade. Meus amigos realmente não podem com pão de queijo, requeijão, manteiga e geléia.
- Suas amigas, então – disse ele alegremente.
- Pois acho que você já as conhece todas – disse ela secamente – Se bobear conhece melhor do que eu.

O silêncio que ele fez despertou arrependimento nela por ter dito o que disse e ela quase sentiu pena dele – afinal ele não tinha culpa por ser um homem instável, vítima das próprias escolhas, sempre duvidosas. Ou será que na verdade esta era a sua desculpa para não se julgar por se importar tanto com quem ele estivera na cama ou não?

- Bingo – disse ele, resilientemente, depois de algum tempo – mas você também não está tão atrás de mim assim, dona saideira. A única diferença entre nós é que eu me apaixono de verdade e me entrego por completo. Não fico por aí escondendo as pessoas com quem me envolvo, ao contrário de certas pessoas.
- O que você quer dizer com isso? – Ela perguntou, subitamente alarmada.
- Quero dizer que toda vez que falo a seu respeito com algum cara, reafirmo minhas crenças de que você é realmente estúpida nas suas escolhas amorosas.
- Ah, isso não foi gentil de sua parte.
- Putz, nem da sua! Como você acha que eu me sinto sabendo que você deu mais bola prá qualquer um dos homens que eu conheço do que prá mim? Parece até que eu tenho uma doença contagiosa ou algo assim!

Ela ficou em silêncio, elaborando rapidamente uma listinha de com qual amigo dele tivera um casinho, namorico ou qualquer coisa homem-e-mulher e, de fato, ficou espantada por saber que seu curriculum também não era dos mais puritanos.

- Ok, empatamos. Somos os dois uns promíscuos azarados. Você me convenceu – ela disse, depois de algum tempo.
- Azarados nada. Afinal de contas nos conhecemos, e por acaso você sabe como se é sortudo quando se encontra o amor da vida inteira tão cedo? – A voz dele tinha um tom divertido e brincalhão.
- Em primeiro lugar, o que você quer dizer com “tão cedo”? Afinal, com a nossa idade não se pode dizer que seja “tão cedo” para coisa alguma e... Em segundo, o que você quer dizer com “amor da vida”? Você tirou o dia prá me zoar, é isso?
- Bom, respondendo à sua primeira pergunta, você tem 30 anos, eu 37, e consigo imaginar logo de cara pelo menos 5 coisas que seriam “tão cedo” para nós: câncer, hepatite tipo B, AIDS, uma doença tropical rara para a qual ainda não inventaram a cura e... morrer, porque não?
- Ai, que trágico! – Disse ela, entre o riso e o grito.
- ... e, respondendo à sua segunda pergunta, sobre o que quero dizer com “amor da vida”... Quero dizer exatamente isso que eu disse. Amor da vida. Acho que não consigo pensar em outras 3 palavras com o mesmo significado.
- Pois eu consigo. “Coisa de pele”, o que você acha disso?
- Acho que você precisa de bem mais do que isso para me convencer – e se convencer – de que não fomos feitos um para o outro.
- E eu acho que você precisa de um médico – respondeu ela, rapidamente.
- Ou de um padre – disse ele baixinho, como se falasse consigo mesmo – Bom, mas eu não quero acabar com o seu descanso e o seu “ai, ai” sentindo pena de si mesma por não estar acostumada a ficar doente e, quando fica, se transformar em uma chata reclamona. Pois então, se você mudar de idéia a respeito dos pães de queijo, me liga e, se eu estiver de bom humor, até vou te buscar.
- Obrigada pela tentativa, mas eu nem mesmo tenho seu telefone – respondeu ela, com medo que ele desligasse o telefone antes dela dizer algo.
- Amor da minha vida, com a quantidade de pessoas em comum que conhecemos, esta seria sua última dificuldade se realmente quisesse me ligar. – disse ele, brincalhão e sem dar a mínima para a forma com que ela encararia sua brincadeira.
- Ah, é...
- Boa noite então. E muito beijos nessa sua boca linda.
- Boa noite – respondeu ela, mas ele já tinha desligado.

Colocou o telefone na mesinha de centro e suspirou, a cabeça doendo enquanto soltava o ar. Era incrível como ele era insuportavelmente insolente, e insuportavelmente fascinante.
... continua...

O telefone tocou e ela teve dificuldade em se mexer. Tudo doía e a dor deixou-se transparecer em sua voz no exato momento em que atendeu ao telefone:

- Alô...?
- Nossa, que voz é essa, mulher? – A voz conhecida fez com que a pele se arrepiasse por outro motivo que não a febre que sentia.
- A voz de uma moribunda – respondeu ela, deitando-se novamente na cama.
- Que foi, tá mal de gripe?
- Eu estava mal hoje pela manhã. Agora tô péssima.
- Ahhh, quer dizer então que você tá precisando de uns carinhos e de uns beijinhos? – A petulância causava nela irritação e fascínio.
- Só se for de um suicida. Do jeito que tô me sentindo à beira da morte, levo qualquer um comigo.
- Hummm... Você está vendo um túnel escuro com uma única luz ao final dele?
- Há! Ainda não...
- Pois então se assossegue que a morte não está tão próxima assim. Mas, por via das dúvidas, não abra a porta para ninguém que esteja vestindo uma capa escura e que segure uma foice.
- Obrigada pelos conselhos. – disse ela, deixando escapar um risinho divertido.
- Pois não é então que arranquei um sorriso?
- Devo confessar que você é bom nisso.
- E olha que você não viu nada...

Ele deixou que a voz morresse ao final da frase, o que deu pano para manga para a imaginação dela. Sentiu a febre aumentar um pouco mais.

- Escuta, estava mesmo pensando em preparar uma canja prá mim hoje. Não quer vir filar um rango? – Quando voltou a falar sua voz era divertida, e ela pensou que ele era abslutamente irritante por ter a exata dimensão dos efeitos que causava nela.
- Ahhh... – ela pareceu pensar por alguns momentos – obrigada, mas não é meu prato preferido.
- Nem o meu – disse ele – e eu fiquei aqui me perguntando onde é que iria arranjar uma canja se por acaso você aceitasse meu convite.
- Dica: da próxima vez ofereça lazanha de frango com vegetais. É baratinha e você encontra em qualquer lugar.
- Dica anotada – respondeu ele, num tom de voz como se de fato estivesse tomando nota de alguma coisa. – Agora que escapei da canja, que tal pão de queijo? Pra falar a verdade é a única coisa que tenho na geladeira. E se você me disser que não gosta de pão de queijo vou dizer que você está mentindo, porque me lembro muito bem o que você comia naquele dia em que descobri que você era uma estúpida no que se referia a escolher seus homens.

Ela deixou que um riso escapasse de seus lábios, relembrando aquela primeira conversa que tiveram quando se encontraram e ele perguntara onde estava seu namorado – que era amigo dele e, na realidade, seu ex-namorado-com-quem-vivia-uma-nítida-e-ridícula-tentativa-de-acerto. Eram mais de dez da noite e ela, em uma crise de abstinência de nicotina depois de 4 dias sem fumar, havia saído para um passeio de bicicleta sem perceber que não comera nada. Resultado: havia chegado ao centro da cidade aos trancos e barrancos, quase se desequilibrando e meio zonza e esverdeada. Havia se sentado à uma mesa na única lanchonete-sorveteria aberta e pediu a única coisa salgada que eles tinham para vender àquela hora da noite: pão de queijo.

Ele se aproximou e perguntou pelo amigo e ela disse, irritada, que ele não valia tanto assim ao ponto de fazer com quem parasse de comer seu pão de queijo, o que despertara gargalhadas dele e até mesmo dela. Naquele mesmo dia ele se revelara perigosamente sem escrúpulos ao responder:

- Conheço dois outros ex-namorados seus e posso afirmar que, menina, você é uma fodida na escolha dos seus homens!

Apesar de ter ficado absolutamente irritada com a resposta dele, sorriu e respondeu:
- E quem você acha que é para me dizer algo a respeito dos homens que eu namoro?
- A futura confirmação dessa teoria.
... continua...

E então num repente eu mando um email que me tira um nó da garganta aqui, puxo um papo com um ex e desato um nó ali, digo uma verdadequeprecisavaserdita a uma amiga acolá e aí eu deito com a cabeça levinha no travesseiro prá, como diria meu pai, dormir o sono dos justos.

Às vezes sou fodaprácarai :P

Então tudo bem, se a gente tem esse pacto: eu sou a única mulher com quem você namoraria; você, o único homem com quem eu não me envolveria.

Então tudo bem, se a gente fica combinado assim: neste tempo longe você canta seu amor prá quem quiser; quando eu voltar sua voz será só em mim.

Então tudo bem, se a gente entra nesse acordo: você esquece do meu ex seu conhecido; eu, da minha conhecida apaixonada.

Então tudo bem, se a gente assina esse contrato: eu não ando com você de mão dada na rua; mas é você quem me leva prá casa.

Então tudo bem, se a gente concorda nisso: você não vale nada e eu sou da sua laia; ninguém aqui nunca aprendeu a ser fiel e ambos já perdemos as esperanças.

Então tudo bem, se a gente pensa do mesmo jeito: sou sua próxima dor de cabeça; você, meu futuro arrependimento.

Depois de uma conversa na qual Fulana viu-se obrigada a se posicionar e dizer ao pretê-hobbie que não, não era sua namorada e não, não queria ser, ela agora vem saindo com um carinha que chamarei aqui de pretê-ncioso – por motivos óbvios.

O cara é motivo certo de problemas – tem tudo para ser sua próxima escolha estúpida, seu próximo carinha-problema, sua próxima fonte de lamentação. O cara é ciumento e reclama se Fulana demora a voltar do banheiro durante uma balada, estufa o peito e olha feio na direção de todo e qualquer homem com quem ela conversa.

Pretê-ncioso é arrogante, petulante e irritante – e está tirando Fulana do sério. É metido, faz piada sobre seus ex-namorados, gosta de perturbá-la perguntando, afinal de contas, porque é que ela sempre escolhe os homens errados e, para completar, afirma a quem quiser ouvir que ele é o homem mais interessante com quem Fulana já se relacionou.

E só porque sabe que a irrita, apresenta Fulana a todos os amigos como sua namorada, telefona a noite para dar boa noite e ainda por cima não dá a mínima pelos dois serem o mais novo motivo de fofoca da cidade. Ela jura que já chegou a gritar na cara dele dizendo que não quer namorar e nem que ele a chame de amor, mas que o máximo que conseguiu com isso foi receber flores em sua casa no dia seguinte.

Ontem ele a convidou para jantar em sua casa. Como seria um programa privê, apenas os dois, nada que pudesse comprometê-los em meio à população fofoqueira da cidade onde vivem, Fulana aceitou. Pretê-ncioso disse que telefonaria mais tarde, quando saísse do trabalho. Fulana fez escova nos cabelos, pintou as unhas e esperou. E levou o maior bolo de sua vida.

Hoje ela me telefonou dizendo que sonhou com ele e seu piano. Por mais que eu a ame, Fulana às vezes merece uma surra.


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Brilho Próprio

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© 2007 Flavia Melissa
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