All made of stars                    



Ontem baixei o primeiro CD da Amy, Frank, lançado em 2003. Quem já ouviu vai concordar com o que eu vou dizer sobre o disco e quem não ouviu, fáfávô.

No início mal se percebe que a moça de voz melodiosa é Amy Winehouse. Um jazz sinuoso escorre pelos acordes de sua guitarra, enquanto ela exibe todo o seu potencial vocálico, seduzindo e brincando com suas composições ardidas – digamos que seja um drink-and-dinner date, e não uma farra a la Bangaloo 8 na companhia de Kelly Orbourne.

À medida em que as composições avançam é possível perceber que a moça de voz delicada e a dona do cabelo colméia constantemente encrencada e fodida na vida pessoal são a mesma pessoa. A primeira faixa do disco já começa com ela pedindo, pelamordedeus, um homem mais forte do que ela. Em “Stronger than Me” ela praticamente implora para que o amante em questão pare de falar e simplesmente a coma, sem essa de querer apresentá-la à mãe e de chorar todas as suas inúmeras pintangas ao final do dia. No final de tudo ainda pergunta, “afinal de contas, você é gay?”.

Conforme o disco vai rolando, vão aparecendo várias e várias facetas desta menina judia nascida em Southgate: a que chora a dor de uma rejeição em “You sent me flying”; a que sente que é muito melhor compreendida pela melhor amiga Cherry do que pelo namorado em “Cherry” (que, na verdade, era sua nova guitarra); a que despreza as mulheres interesseiras e que só querem se dar bem na vida arrumando um namorado jogador de futebol em “Fuck me Pumps”; a que se desculpa por ter traído o namorado – mesmo sem se julgar tão culpada assim – em “I heard love is a blind”; a que devolve todos os presentes que ganhou do namorado – inclusive discos de Sinatra e sutians Moschino - após separação conturbada em “Take the Box”; a que sofre e fica arrasada com a morte de seu canário de estimação em “October song”; a que não se conforma com as próprias escolhas erradas no que se refere a relacionamentos em “What is it about men?”; e, por fim, minha Amy-Frank preferida: a garota que não aguenta mais se relacionar com homens os quais precisa carregar nas costas e lutar para manter suas cabeças fora da água, em “Help yourself”.

Quem conhece o trabalho de Amy logo de cara já se deu conta da enorme diferença que existe entre Amy-Frank e Amy-Back-to-black. E a respeito desta diferença, a própria Amy disse: “Frank é um disco com uma visão dos caras e de relacionamentos tipo,´mas que merda, quem você pensa que é, some da minha frente seu looser!’. Já Back to Black é mais ´Cacete, mas que merda que não conseguimos fazer isso dar certo, e isso me mata por dentro´”. Amy levou 18 meses para voltar a compor após Frank, e acho que isso já mostra que bastante coisa aconteceu neste meio tempo.

Levei um fora, fiquei arrasada, nada mais fazia sentido. Eu só queria ir para bares onde eu pudesse esquecer de tudo, tomar uns drinks, jogar bilhar e ouvir discos de vitrola automática. Foi isso que eu fiz, naqueles 18 meses. Bebi, joguei bilhar e ouvi muita vitrola automática”, disse Amy, em entrevista concedida ao Daily Mirror na época do lançamento de Back to Black.

O que me faz voltar aos motivos para simplesmente AMAR Amw Winehouse e afirmar, do alto das minhas tamancas de oncinha, que se eu tivesse sido descoberta por algum puta talento aos 20, provavelmente exibiria um ninho de Mafagafos na cabeça e, talvez, dentes a menos perdidos de formas misteriosas (as tatuagens já estão aqui, sorry).

Eu acho que deve ser muito-muito foda ficar famosa enquanto se tem uma visão mais adolescente do mundo dos relacionamentos e levar um fora, ficar arrasada e querer morrer sem poder cagar fora do penico sem que tenha alguém por perto te olhando, fotografando, filmando e contando prá todo mundo as merdas que você fez. Deve ser muito-muito foda virar adulta sob o olhar vigilante de todo-fucking-mundo e segurar essa onda sem uma família que te estruture. E deve ser muito, mas muito, mas muuuuito foda ter todo o dinheiro do mundo à sua disposição prá poder ficar maluca sem se preocupar se você vai ter como pagar as contas no final do mês.

Como eu, aos 20 anos, era uma imbecil completa e reta, sinto decepcioná-los mas... Sim, eu poderia ser Amy Winehouse. Adoro o jeito papo-reto de Amy, seu senso de humor quando está sóbria o suficiente para falar é fantástico e eu simplesmente sou apaixonada por pessoas que não temem ser quem são – seja lá o que isso signifique. Detesto gente que se faz de boazinha, detesto o que é politicamente correto, detesto quem faz política. Detesto, detesto, detesto. E não vou mais falar sobre isso porque a Dama de Cinzas já disse tudo o que tinha que ser dito sobre as Bad Girls em seu ótimo post Menina Má.

E simplesmente desprezo essa filosofia de erguer dedos com unhas muito bem feitas na direção de uma pessoa claramente doente e julgá-la, criticá-la, desprezá-la – como se todos nós não tivéssemos nossa própria parcela de potencial auto-destrutivo. Vamos lá, bote a cabeça prá funcionar: fazer sexo sem camisinha, misturar substâncias aparentemente inocentes para se sentir bem na balada, maltratar o corpo com dietas malucas, dirigir bêbado, correr riscos em nome de amores... Que atire a primeira pedra quem for santo e, de preferência, prá longe de mim, que sempre achei gente normal e careta muito chata.

Então eu simplesmente AMO Amw Winehouse com todas as minhas fucking-forças. Até admito que eu tenho uma quedinha por mulheres estilo Billy Holiday, que durante uma fossa acabam num bar as duas da manhã de mãos dadas com suas garrafas de whisky – okei, meu personal potencial de auto-destruição, confesso.

Mas mais vale uma verdade escancarada do que uma meia-verdade. O que, na verdade, acaba sendo uma meia-mentira.

PS_ Eu rezo todos os dias para que Amy saia dessa e nos brinde com muitos e muitos outros discos geniais

PS2_ E morro de pena dela e esse relacionamento doente com Blake, mas não julgo porque eu mesma vivo me apaixonando por completos idiotas

PS3_ Prá quem quer conhecer um pouco mais o trabalho dela, nem que seja só prá poder criticar com propriedade, acesse o site dela. E aqui tem todas as letras!


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Brilho Próprio

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