All made of stars                    


Qual não foi minha surpresa quando, dia desses indo de bicicleta ao mercado, surpreendi minha amiga Fulana aos beijos e abraços com ninguém mais ninguém menos do que seu pretê-hobby, logo ali na prainha perto de sua casa. Ela me acenou alegremente ao me ver passar e, vinte minutos mais tarde, me ligou no celular enquanto eu percorria as prateleiras em busca das coisinhas que me faltavam em casa.

Ela me contou que, três dias atrás, estava se arrumando para sair para dançar com as meninas quando o telefone tocou e, surpreendentemente, era o pretê-hobby na linha. O rapazote pareceu bem feliz de falar com ela, disse que vinha tentando telefonar há dias mas que nunca ninguém atendia o telefone.

- E porque ele não te ligou no celular? – perguntei eu, arregalando os olhos diante do preço exorbitante do arroz integral.
- Porque eu não dei o meu número a ele. Só o daqui de casa, e realmente andei fora essa semana, você sabe, com o trabalho e tal...
- Mas porque não deu o do seu celular? – Insisti, acenando de longe para o dono da farmácia.
- Ah, quando ele me pediu estava com pressa de ir embora logo e disse apenas os quatro últimos números, prá ele decorar e eu não ter que ficar esperando ele pegar papel, caneta...

(este é um procedimento bastante comum aqui na ilhota. Como mais de metade dos telefones começam com o mesmo prefixo, fica bem mais fácil falar apenas os últimos números e pronto. Rápido, prático e eficiente, a não ser que você queira ser encontrada a qualquer hora do dia e da noite, não importando o dia da semana. O que, aparentemente, não era o que Fulana pretendia com o pretê-hobby.)

Enquanto eu olhava um produto aqui, outro ali, olhos arregalados all the time, Fulana foi me contando que, na ligação, ela havia comentado onde estaria naquela noite com as amigas. Qual não havia sido sua surpresa quando ele lá apareceu, tentando convencê-la a abandonar as amigas e seguir com ele de barco para uma festa no sul da Ilha. Não havia ido, evidentemente, afinal de contas ela não estava interessada nele. Mas no dia seguinte ele havia telefonado dizendo que estava com saudades, querendo saber se poderia vê-la ao sair do trabalho. Segundo Fulana, ele ainda havia chamado-a de amor e se despedido soprando um beijo ao final da ligação.

- Mas então você está agora empolgada com ele, é isso? – Perguntei, me dirigindo ao caixa.
- Claro que não. Ele não é nada daquilo que eu quero para mim, amiga, nadanada parecido, sequer – Me respondeu ela, rindo da minha pergunta.
- Hmmm... Então...? – Insisti.
- Ele tem um cheiro bom. E é sempre carinhoso nas ligações. E a pele das costas dele é lisinha, sem espinhas nem pêlos. E ele é alto e eu posso usar qualquer salto. E ele tem mãos enormes, nas quais as minhas simplesmente desaparecem. E trabalha aqui pertinho de casa. E apesar de ele fumar, está sempre chupando uma bala ou mascando um chiclete.

Fiquei em silêncio, contabilizando tudo de certo que o cara errado para Fulana tinha. Acho que ela percebeu o significado do meu silêncio e disse:

- A gente espera tanto pelo cara ótimo que acaba deixando os bons passarem. Pois eu te digo, minha amiga querida, que o ótimo é inimigo do bom. Quando a gente encontra um homem que pode ser o príncipe que idealizamos, inventamos tanta coisa, somamos sobrenomes, imaginamos o casamento, escolhemos os nomes dos filhos, projetamos mentalmente a casa-ninho-de-amor... Pois então vou te dizer que, quando eu finalmente me convencer de que ele não é mesmo prá mim, vou sentir muito menos falta do cheiro dele ou de suas mãos enormes do que do casamento, juras de amor ou filhos que eu já teria inventado à esta altura do campeonato.

Quando desliguei o telefone reconheci que, afinal de contas, talvez eu tenha mais a aprender com Fulana do que imaginei a princípio.


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Brilho Próprio

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