All made of stars                    




1. São os melhores subordinados que se pode ter, se você precisa ser acatado. Obedecem às orientações sem nenhum questionamento e trabalham bem, feito formiguinhas.

2. São os piores subordinados que se pode ter, se você precisa de pessoas quem tenham iniciativa e jogo de cintura. Porque eles obedecem a tudo sem nenhum questionamento, mesmo que sua orientação seja cretina e fadada ao fracasso.


3. Assim sendo, obedecem a tudo que o governo diz. Se fala que se deve usar máscara aos primeiros sinais de gripe, todo mundo sai de máscara na rua. Na semana seguinte todos os camelôs começam a vender máscaras bonitinhas, xadrezinhas ou desenhadas, até Louis Vitton tem.

4. Eles realmente catarram o tempo todo, sem nenhum pudor. Às vezes, quase no seu pé. Na minha primeira noite em Xiamen, esperava ansiosamente a comida ficar pronta quando, de repente, ouvi da cozinha uma sonora catarrada e cusparada, na sequência. Naquela noite só tomei chá.

5. Por falar em chá, eles tomam o dia inteiro. E ficam andando para cima e para baixo com aquelas garrafinhas na mão. Aliás, é exatamente este o motivo das catarradas e cusparadas: aquilo vai criando um ranço na garganta que deusmelivre.

6. A questão das catarradas é tão grave que, em cidades maiores como Beijing e Shanghai, as pessoas são multadas por fazê-lo em público. Alguns locais até ostentam uma placa dizendo que é proibido catarrar. E daí, como são obedientes, não catarram.

7. Pelas minhas contas do número de habitantes dividido pelo espaço geográfico do território chinês, existe uma pessoa por metro quadrado na China. Levando-se em consideração regiões absolutamente inóspitas, alagadas ou desérticas, os chineses se empilham na região urbana. Então eles não fazem a menor idéia do que seja espaço pessoal. Lá não é “cada um no seu quadrado”; qualquer quadrado é de qualquer um e por isso, se você estiver na fila do mercado, nem pense em deixar mais de meio metro entre você e a pessoa que está na sua frente, que sem nenhum bom senso alguém vai se enfiar ali. Eles não fazem a menor idéia do que seja fila. Levando-se em consideração que uma a cada cinco pessoas no mundo é chinesa, a lei ali é cada um por si e Mao por todos.

8. Daí você se posiciona naquela paisagem linda em plena Muralha, aproveitando estrategicamente o momento em que não tem nenhuma pessoa por perto (milagre!) atrapalhando para tirar uma foto. E antes mesmo da amiga ou desconhecido conseguir bater a foto, sem mais nem menos um chinesinho vai se aproximando, se aproximando, se aproximando... Até estar ao seu lado posando para uma fotografia que é batida por outro chinesinho sem noção. Que Muralha que nada, a paisagem ali somos nós!

9. Eles são absolutamente esquisitos no que se refere a relações comerciais e a pechincha é inerente ao china-lifestyle. Se eles pedem demais e você diz que está caro e vai embora sem pechinchar eles se sentem ofendidos e começam a gritar “last price!” pela rua, correndo atrás de você e te puxando pelo braço. Mas se você responde um last price muito baixo, eles podem se ofender incrivelmente. Em Shanghai ofereci 150 Y$ em uma bolsa fake Vivienne Westwood que estava sendo vendida por 2500 Y$ e a vendedora ficou possessa. Arrancou a bolsa da minha mão e me empurrou para fora da loja, dizendo “not my friend” sem nem querer subir mais o preço. Fiquei com as marcas roxas no meu braço pelos próximos 3 dias.

10. O trânsito chinês é a maior loucura que eu já vi na vida. Não existem regras. Nenhuminha, se você tive errado o caminho é só da ré ou dar meia volta e voltar, algumas vezes até mesmo pela contramão. A única coisa que você deve fazer é buzinar, sempre e muito, para avisar a todo mundo que você está ali – eles praticamente não usam o retrovisor e presumem que se você estiver passando, vai mostrar que está.


11. É por isto que as portas de passageiro localizadas diretamente atrás do motorista não abrem. Você deve necessariamente entrar e sair do táxi pela porta atrás do banco do carona. Na primeira vez que se abrisse a porta de trás do motorista alguém levava a porta embora, certeza.

12. É por isto também que não existem motoboys na China. Ou então eles seriam todos mortos no primeiro quarteirão depois de sair de casa.

13. Em compensação existem bicicletas e mobiletes elétricas por toda a parte. Inclusive nas calçadas. Enquanto isso, as pessoas andam no meio da rua, como se fossem carros.

14. As mobiletes elétricas são um capítulo à parte. A primeira vez que vi uma foi na sala de atendimento no hospital da universidade, encostada em uma parede, carregando na tomada. A segunda vez foi quando vi o Dr. Man, o ilustre proprietário, entrando no elevador montado na mobi. Não desceu nem para vestir o jaleco.

15. O senso de humor chinês é totalmente diferente do nosso e, não importa o quanto engraçado você seja, eles só vão rir se você perguntar a diferença entre um brasileiro e um chinês. Resposta: quando os dois vêem um passarinho, o brasileiro diz “que bonitinho!”. Já o chinês massageia a pancinha e murmura, “nham-nham!”.
(*) Picture by Flavia Melissa, aeroporto de Frankfurt, Alemanha.


E então voltei pra esta parte do mundo certa de que meu caminho irá, mais cedo ou mais tarde, me levar de volta para aquela parte de lá. E quando os símbolos desconhecidos se transformarem em sons na minha boca, nem seremos tão diferentes assim.

(estou aprendendo a não contar o tempo)
(*) Picture by Flavia Melissa, People's Park, Beijing.


Agora em novembro meu blog faz três anos de vida e eu não estarei por aqui para soprar as velinhas.

Meu destino é o país de muralhas em todos os sentidos. É o pais de muralhas milenares, construídas em uma época em que o que separava os povos precisava ser físico, e não apenas social, cultural ou econômico. É também o país de muralhas resistentes, que possibilita a sobrevivência de uma ditadura comunista ao mesmo tempo em que desponta como a quarta economia mundial, atrás apenas dos EUA, Alemanha e Japão. E que promete passar ao segundo lugar em 2010, a despeito do que previam os economistas e sociólogos há dez anos.

É também o país das muralhas de informação. Em que blogs e sites como Orkut e Facebook são bloqueados e resultados de pesquisas do Google são restritos. É um país onde não se pode entrar portando qualquer material positivista em relação ao Tibete – nem um inocente livrinho com frases do Dalai Lama. E fui devidamente avisada de que qualquer guia de viagem que eu queira levar não pode apresentar Taiwan como território não chinês. Segundo o consulado, posso ser presa por isso. Lá as muralhas podem facilmente se transformar em grades, e por isso o seguro viagem engloba uma cláusula que garante US$12 mil para eventuais gastos judiciais.

Mas é um país sem muralhas no que se refere a conhecimento. É um país que recebe os estrangeiros dispostos a aprender sua milenar Medicina Tradicional Chinesa de braços abertos. É um país que, por mais muralhas que existam nos mais variados sentidos, não construiu muralhas em torno da prática profissional. É um país em que não existem atos médicos sendo aprovados em câmaras compostas por políticos corruptos mais interessados em fazer lobby do que justiça. É um país literalmente à frente em muitos aspectos, não apenas no fuso-horário.
Assim, me despeço de terras tupiniquins certa de que as muralhas de lá irão, de muitas e infinitas formas, destruir as muralhas daqui de dentro e todas as outras que ainda restam à minha volta.

Me aproximo da beira do precipício e me jogo de braços abertos.
PS_Estarei fora de órbita. Quem quiser, me mande um email, o endereço tá na abinha lá em cima.

Houve um tempo na minha vida que eu amava arrumar a mala. Naquela época, arrumar a mala era sinônimo de começo de viagem, e eu escolhia cada roupa imaginando onde iria usá-la, com quais acessórios, com qual sapato e bolsa... Depois comecei a trabalhar no acampamento, e fazer a mala virou parte da rotina. A cada cinco meses enfiava absolutamente tudo do que eu poderia precisar dentro e rezava para que, no inverno, o frio não castigasse tanto “quanto no ano passado”. Isso sem contar os finais de semana e feriados trabalhando. Depois de um tempo passei a me acostumar com o básico, já que lá tinha lavanderia, e minhas malas passaram a ter um tamanho cada vez menor. Daí pedi demissão e me meti nessa vida maluca indo e vindo entre Ilhabela e Sampa City, e nesta estou há dois anos. Passei a detestar fazer a mala. Acho a função absolutamente irritante, nada me tira mais o bom humor do que pensar em fazer mala. Para não ter que ficar fazendo mala duas vezes por semana, resolvi separar as minhas roupas entre Ilhabela e Sampa. É lógico que um terço das coisas que eu queria levar ficaram esquecidas lá e, agora, me vejo nesta situação: tenho que fazer uma mala para 3 semanas em um país cujos costumes não conheço, em que metade do tempo estarei em uma temperatura de 20 a 30 graus e metade de 3 a 8 graus (sem contar a passagem por Frankfurt, gelaaaaaada), que não sei se vou conseguir lavar roupa e, para completar, não sei se posso ser presa por usar uma blusa aberta nas costas (acreditem, metade das minhas é assim). Deveria existir um personal packer. Eu contrataria.

Hoje me encontrei com as meninas-borboletas e assinamos o contrato. O lançamento é em dezembro e já estava tudo muito em cima da hora. Quando disseram para nos encontrarmos antes de eu ir viajar fiquei angustiada, achando que não ia conseguir vê-las e assinar a tempo se tivéssemos que nos encontrar em outro lugar que não fosse Higienópolis. Faltam só dois dias e tenho um zilhão de coisas a providenciar ainda, incluindo encerrar uma conta de banco e visitar a amiga e sua bebê recém-nascida no Morumbi, e estes compromissos por si só já esgotam minhas possibilidades passar horas fazendo outra coisa que não seja arrumar a mala tentando não me esquecer de nada. Mas, por uma feliz coincidência, a que trabalhava longe agora trabalha por aqui, na continuação da rua de casa, lá prá cima. Coincidência só prá quem não acredita em sincronicidade; eu já aprendi a ler os sinais que a Vida manda, e ela, sim, sabe das coisas.

Mais novidades em breve =)

Ps_ estou achando muito chique pensar que tenho editoras!

Vislumbro meus sonhos pela janela da minha alma e me vejo na beira do precipício de sua realização. Enquanto grandes tigres brancos e dragões vermelhos se confrontam no dorso de minha mão, meu pensamento passeia por templos desconhecidos no alto de montanhas e substâncias misteriosas e complexas são produzidas dentro da menor parte de mim, para que a terra sob meus pés me dê sustentação para caminhar na direção do horizonte. Nada me parece assustador, nada me ameaça e a certeza do sucesso é tão real quanto o ar que eu respiro, tão real quanto os grãos que mastigo lentamente enquanto meu sangue se fortalece dentro das veias. As perguntas são muitas, complexas e ininterruptas, mas a cada dia encontro velhas e novas pessoas dispostas a respondê-las quando sabem a resposta e a passarem a pergunta adiante quando não a conhecem. De um modo ou de outro sempre tenho minha sede saciada, o que me faz enfrentar minha trajetória de peito aberto, sem dispor de armas que não possam ser recebidas com um sorriso: em uma mão carrego minha história, em outra minhas aspirações e em meu coração trago uma rosa. No rosto, nada além de olhos brilhantes e da expressão plácida daqueles que já compreenderam que a Vida toma conta de tudo.
(*) Imagem: Beatriz Milhazes. "Carioca", 2008.

Eu gosto de me sentar a uma mesinha do Starbucks do shopping aqui do bairro, tomar um café e observar as pessoas à minha volta. Gosto de observá-las em suas conversas, em suas risadas e beijos apaixonados. Eu costumo observá-las enquanto imagino de onde são, o que fazem e para onde irão quando passam pela porta em direção à rua. Fantasio suas vidas como se fossem personagens de um filme e praticamente sou capaz de afirmar quais são suas cores, livros e canções preferidas, a última vez que choraram assistindo a um filme e quantas vezes tiveram o coração partido. Me perco em pensamentos a respeito de suas dúvidas, desejos e medos. Às vezes tenho vontade de puxar conversa, oferecer uma palavra de apoio ou apenas compartilhar de uma boa notícia, quando vejo que sorrisos são mais numerosos do que silêncios encabulados. Meus preferidos são os solitários que, assim como eu, se sentam sozinhos acompanhados de uma revista, livro ou i-pod. Adoro os que conversam ao telefone, principalmente no momento em que encerram a ligação e entram em contato com a própria e inefável solidão momentânea, naquele instante em que ainda conservam uma risada que morre no tempo, ou no exato segundo em que uma ruga de preocupação se desvanece na expressão. Adoro os que aparecem munidos de lap tops e suas expressões faciais enquanto viajam na virtualidade. Observar as pessoas assim faz com que eu me sinta absolutamente pertencente ao mundo, ao mesmo tempo em que constato o quão infinita e slitária pode ser minha existência. Minha essência eterna se manifesta em momentos em que nada me faz companhia, exceto os pensamentos.

Daqui a duas semanas, neste exato momento estarei dentro do avião.
E quando ele decolar, vou olhar pela janela e ver que, lá de cima, tudo isso aqui fica pequeno, muito pequeno. Quase nada.

(Isso, é claro, se o vôo não atrasar. E se eu conseguir um lugar na janela)


Já que ando na onda dos clássicos, assisti “As Pontes de Madison” e, até agora, toda vez que me lembro da cena de Francesca recebendo a caixa com os pertences de Robert quase trinta anos depois de tudo, me acabo de chorar. Fazia tempo que eu não assistia a uma historia de amor tão delicada e mais tempo ainda que eu não chorava vendo um filme, tirando as duas lágrimas de derramei quando o barco das crianças volta em “Austrália” – porque crianças órfãs vem me emocionando muito mais do que historias de amor. Mas depois deste filme, juro por tudo que é mais sagrado que se algum dia na minha vida eu tiver uma certeza tão grande quanto Robert e Francesca tiveram de que encontrei meu grande amor, faço tudo o que for preciso para não deixá-lo ir embora. Pelo menos não sem me levar junto.

Finalmente resolvi ler os clássicos de cinqüenta anos atrás que estão na minha estante e eu nunca tinha lido. O primeiro foi O Vale das Bonecas, de Jacqueline Susan, escrito na década de 60 que narra, com maestria, vinte anos da vida de três mulheres envolvidas no showbiz americano. A história começa em Nova York com os musicais da Broadway, passeia pela França no começo dos filmes de arte (leia-se: com cenas de nudez) e ventila a decadência dos grandes estúdios de Hollywood em função do advento da TV. O livro reúne tudo o que foi preciso para que, na época, se transformasse num grande sucesso de vanguarda: estrelas norte-americanas envolvidas em escândalos sexuais, abuso de barbitúricos (na época a moda eram as “bolinhas”), internações para rehab, suicídio e traições amorosas sofridas. Hoje nada disso é novidade, como nos provam Lily, Brithney, Amy e lá vai pedrada, mas na época despertava os medos e temores de uma sociedade que se via a beira da falência dos valores morais vigentes até então. Amei o livro de 580 páginas, devoradas em 3 dias, exceto pelo final nada feliz. E eu fiquei me perguntando onde é que, raios, foram parar os grandes amores do mundo. As histórias de amor com finais felizes morreram, creio eu, junto com o último romântico dos tempos modernos, para quem amar não era contar piada. O amor foi por água abaixo para que a arte prosperasse, creio eu. De qualquer forma, fica a dica de um ótimo livro, baseado no qual fizeram um ótimo filme, que depois virou um ótimo musical e eu não entendi até agora como é que ainda não virou minissérie da Globo. Aliás, uma curiosidade sobre o filme: Judy Garland tinha sido escalada para um dos papéis principais mas, em função dos inúmeros atrasos nas filmagens, acabou sendo cortada. Deve ter subido no próprio ego para somewhere over the rainbow e achado que uma estrela como ela não precisava cumprir horários, tal qual uma das personagens principais. Nada mais condizente com o universo de celebridades em estado de degradação traduzido brilhantemente no livro, que me levou a ter certeza de que a arte realmente imita a vida. Ou vice e versa?


Passados quase três meses do término do meu último relacionamento, já sou capaz de enumerar os benefícios de estar solteira novamente: dormir sozinha e esparramada em minha cama enorme sem ouvir roncos durante a noite, acordar cedinho e poder arrumar o quarto quando bem entender sem ter que esperar ninguém acordar ao meio-dia, voltar a desfrutar da companhia de velhos e queridos amigos com quem já tive um affair no passado sem ter de lidar com crises de ciúmes e, principalmente, poder passar três semanas literalmente do outro lado do mundo, sem me preocupar com uma possível traição durante a minha ausência. Isso sem falar na economia decorrente do fato de não ter que me depilar a cada 3 semanas.

Mas, como nem tudo é perfeito, não posso negar que existem situações em que um namorado faz muita falta. E que quando acontecem, me sinto tão perdida que fico até tentada a dar mole para aqueles dois ou três carinhas que estão sempre sorridentes e disponíveis, só para ter a quem pedir ajuda nos momentos de desespero.

Como quando, vez ou outra, entra um morcego aqui em casa, que fica perdido dando rasantes pelo corredor até encontrar uma saída qualquer.

Estes dias aconteceu de novo. Lá estava eu à beira do fogão, preparando um creme de mandioquinha. Enquanto mexia o caldo na panela, assistia distraidamente um episódio de Friends quando, de repente, percebo uma sombra enorme correr pelo chão da sala.

Congelei no lugar onde estava, como se alguém tivesse gritado “estátua”, rezando para que não fosse o que eu achava que era. Mas antes que pudesse sequer completar a primeira frase da oração, a sombra se projetou de novo, desta vez acompanhada pelo barulho de asas batendo.

Soltei um grito agudo que mais parecia um uivo, e Hannah, Lonah e Mayah começaram a latir do lado de fora da casa. Senti meu coração acelerado enquanto fazia a única coisa que poderia: tirei a panela do fogo e corri para a área de serviço, batendo a porta da cozinha atrás de mim.

Abre parênteses: não tenho absolutamente nada contra morcegos, nem nojo nem medo nem nada; o que tenho é desespero. Tudo por causa de um incidente ocorrido há anos, quando eu trabalhava no acampamento e, um dia, um morcego desgovernado se enroscou no cabelo de uma acampante. Ela gritava e sacudia a cabeça de um lado para o outro e o bichinho batia asas tentando se soltar, enquanto dúzias de outras meninas com idades entre 10 e 12 anos se amontoavam atrás de mim, gritando. E eu – euzinha! – tive que desenroscar o bicho do cabelo da garota, que em nenhum momento parou de gritar e espernear. Desde então, toda vez que vejo um morcego, tenho a absoluta certeza de que ele vai voar na minha direção e se enroscar no meu cabelo. Fecha parênteses.

Depois de alguns minutos tentando me controlar, pensei que de nada serviria eu ficar covardemente escondida na área de serviço. O que eu faria, passaria a noite ali, sentada entre as latas de lixo reciclável e orgânico? Não, eu deveria provar minha coragem e pensar em alguma alternativa madura e adulta que não envolvesse telefonar pedindo a ajuda do meu segundo ex-namorado mais recente, já que na última vez em que fiz isso a namorada atual dele teve um faniquito de dar nó em pingo d'água.

Reuni todas as minhas forças e consegui abrir a porta da cozinha, peguei a vassoura que era a única arma à minha disposição no momento, e passei cuidadosamente à sala. Acendi a luz e pimba!, mais um rasante do bichinho, mais um uivo meu e mais latido das cachorras do lado de fora que, a esta altura, arranhavam a porta agressivamente, protetoras que são.

Meu coração parecia explodir dentro do peito, enquanto eu tentava me lembrar de qual tinha sido minha estratégia na última vez em que isso aconteceu. Na época minha atitude mulherzinha e dependente havia sido ligar para meu namorado que estava em outra cidade, e quando percebi que ele não podia me ajudar em nada simplesmente fechei a porta do meu quarto (onde o bichinho estava) e dormi no sofá da sala, me cobrindo com toalhas para não morrer de frio. O que eu certamente faria novamente, se soubesse onde o bicho estava.

Teria, enfim, que ser muito macho e resolver meu problema sozinha, como uma mulher adulta e independente faria. Sim, eu era adulta, independente e, naquela noite eu dormiria satisfeita, tendo a certeza de que não preciso de namorado – ou ex – nenhum para resolver meus problemas por mim. Sim, eu conseguiria! Quase me convenci disso, enquanto gritava novamente me escondendo atrás do balcão do bar diante de novo rasante dele e latidos delas.

Segurando a vassoura como se fosse um taco de baseball, caminhei lentamente até o inicio do corredor. Até então tudo bem, nada de sombras ou rasantes ameaçadores. Corajosamente, avancei até o lavabo. Acendi a luz, me certificando de que o morcego não estava lá. Fechei a porta e continuei em frente, rumo ao primeiro quarto. Novamente acendi a luz e, depois de verificar que tudo estava ok, fechei a porta.

Agora só faltavam três quartos e dois banheiros, e avancei mais um pouco, me perguntando o que cargas d’água eu faria quando encontrasse o bichinho. Enquanto pensava nisso, fiscalizei mais um banheiro. Mas quando me virei para sair o morcego passou a centímetros da minha cabeça, pude até mesmo sentir uma de suas asas roçando em uma mecha do meu cabelo, o que me impulsionou a correr para dentro do banheiro novamente, batendo a porta com um grito.

Enquanto as cachorras latiam desesperadamente do outro lado da parede, disse a mim mesma que poderia muito bem passar a noite ali. Poderia até dormir um pouco, deitada sobre uma toalha que estava ali desde que os filhos da Ady tomaram banho aqui em casa. Se sentisse frio era só ligar a água quente e me aquecer com o vapor. Mas depois de dois ou três segundos, meu estômago roncou me fazendo mudar de idéia: eu teria que ser corajosa, enfrentar meus medos e – raios! – sair do banheiro. Nem que fosse para correr até o telefone e ligar para o maldito ex – e a namorada paranóica que se danasse.

De repente me lembrei de outro ex que não seria prejudicado em nada caso eu telefonasse pedindo ajuda, já que sua namorada atual é uma de minhas melhores amigas (isso sim é namorada atual de ex que vale à pena!) ao ponto dos dois terem a chave da minha casa para qualquer emergência enquanto eu estiver em São Paulo. Sim, esta era a saída. Pegaria o telefone, correria para dentro do quarto já verificado, ligaria para os dois e, quando eles chegassem, sairia pela janela e estaria segura. Quem precisa de namorado ou ex quando se tem amigos verdadeiros?

Já podia sentir o alívio de estar em segurança acalmando meus batimentos cardíacos. Sim, como eu não tinha pensado nisso antes? Tudo daria certo e em menos de quinze minutos estaria salva. Corajosamente, reuni todas as minhas forças e abri a porta do banheiro, não sem antes enfiar a cabeça numa touca de banho, o que garantiria que pelo menos o bicho não ficaria preso no meu cabelo. Ergui a vassoura acima da minha cabeça e saí para o corredor, fechando a porta do banheiro atrás de mim.

Juntando toda a pouca coragem que ainda me restava, corri para a base do telefone, mas ele não estava lá. Meu celular tampouco. Então me lembrei que os dois estavam no meu quarto, o que jogou meus planos por água abaixo: teria que ser apenas eu, eu sozinha, eu por mim. Mas no exato momento em que ia voltar ao corredor, o sino do portão tocou, anunciando uma visita.

Enquanto abria a porta e me desvencilhava das cachorras que, aliviadas, pulavam em cima de mim, rezava para que a visita fosse alguém com mais coragem do que eu. Corri para o portão enquanto as cachorras corriam para dentro da casa e, quando o abri, meu amigo não entendeu nada: eu era uma mulher desesperada, que vestia uma touca de banho que não combinava em nada com minha calça de moletom e camiseta e agitava uma vassoura, enquanto falava frases desconexas e o puxava pelo braço para dentro de casa.

Meu amigo entrou, pegou a vassoura de minha mão e fez cara de valente, enquanto as cachorras latiam no beiral da porta do quarto da minha irmã, avançando e recuando, mostrando que a ameaça alada estava lá. Eu me fechei na cozinha e rezei para que tudo corresse bem.

Alguns minutos depois meu amigo entrou na cozinha, acompanhado das três cachorras que, satisfeitas, abanavam o rabo – ou a bunda, no caso de Lonah, que não tem rabo. Disse que ele estava no quarto e que tudo que ele fizera foi abrir a janela para o bichinho sair. Quinze minutos depois estávamos sentados à mesa da cozinha, tomando sopa e assistindo Friends. As cachorras ganharam ossinhos e foram colocadas para foras somente às duas da manhã, meu amigo ganhou wrap de maçã e uma taça de vinho e eu aprendi a lição.

Ninguém precisa de namorado quando se tem cachorras, amigos de verdade e toucas de banho.


Diz um antigo conto zen que no alto de uma montanha existia uma árvore muito velha. Seu tronco grosso, esculpido por ranhuras que aqui e ali denotavam machucados do tempo, exibia raízes externas retorcidas. Sua copa não era mais tão frondosa como fora um dia, nem seus galhos tão firmes e nem suas folhas tão verdes. Os moradores dos povoados próximos diziam que ela estava morrendo de tão velha, mas diziam isso já há muitas gerações e ela lá continuava.

Nada existia além da árvore no alto da montanha; era uma árvore solitária, tendo apenas a vegetação rasteira como companhia. Poucos tinham fôlego suficiente para chegar até ela, então era admirada de longe por aqueles que, vez ou outra, se lembravam que aquela árvore existia tão acima da linha de seus olhos.

Um dia um viajante chegou ao povoado e, dentre as lendas da região que ficou conhecendo, ouviu falar da arvore solitária no alto da montanha e da dificuldade que era lá chegar. O viajante resolveu enfrentar a agrura da subida íngreme e, depois de muitas horas, sentou-se em uma das raízes da árvore, pondo-se a conversar com ela.

Segundo o conto, o viajante perguntou à arvore o que ela fazia ali, já que era velha e inútil, não servia para nada e poucos se davam ao trabalho de esticar o pescoço em sua direção. E a árvore respondeu:

- Pois é justamente por ser inútil que continuo aqui; todas as árvores úteis que existiam à minha volta já foram mortas e utilizadas para alguma finalidade dos moradores do povoado. Mas eu sou velha, e por não ter utilidade estou viva.

Quando ouvi esta história, não pude deixar de pensar em como o conceito de utilidade permeia a nossa rotina e o nosso cotidiano. A maioria das pessoas apenas se sente bem quando se enxerga sendo útil a algum propósito, sem perceber que a necessidade constante de função é justamente aquilo que as consome e as definha.

Tudo tem de ser produtivo, tudo tem de ser construtivo – até o ócio deve ser criativo. E nesta roda-viva em que existimos sobra muito pouco espaço para apenas Ser. Sem utilidade, sem uma função pré-determinada, sem obedecer às obrigações sociais de ter que trabalhar das oito as seis com uma hora de almoço, mesmo quando não se tem chefe e nem que bater cartão. Pouco espaço sobra para o vazio; antes de terminarmos uma coisa já estamos pensando em outra, antes de largarmos um relacionamento já temos de estar com outra pessoa, não abandonamos um trabalho que não nos faz feliz sem ter outro ganha-pão na manga.

E quando penso na minha vida, sinto-me como se estivesse em um parque de diversões vendo todas as pessoas em uma roda-gigante, mas eu estou fora dela. Estou fora do padrão de desce e sobe sem que se perceba que se gira em círculo, que se volta sempre ao mesmo ponto. Estou fora da roda-gigante e há muito abandonei a obrigatoriedade de dormir até mais tarde no final de semana ou ter que fazer alguma coisa numa noite de sábado. Meus finais de semana são dias como outro qualquer, eu estudo, trabalho, vou ao mercado e leio bons livros, sem me obrigar a ir à praia só porque todos os amigos que trabalham de segunda a sexta estão indo. Na verdade tenho me obrigado a fazer muito pouca coisa.

Tenho meditado, tido conversas construtivas com as pessoas, tenho brincado com as minhas cachorras e comido na hora em que sinto fome. Descansado na hora que me sinto cansada e, se de repente acordo espontaneamente às cinco e meia da manhã, não me esforço para voltar a dormir, apenas começo meu dia mais cedo – nem que seja deitada na cama, acompanhando meus próprios pensamentos.

E, inacreditavelmente, as coisas têm acontecido. Tenho mais pacientes agora do que tinha antes, duas meninas-borboletas me convidaram para realizar um dos grandes sonhos da minha vida, vou para a China viver no dia-a-dia minha escolha profissional e quase não sobra mais espaço para os medos que sempre tive.

A terapia ajuda em muito, é verdade. Mas tudo começou quando resolvi colocar a “casa” em ordem, expulsar relações que me estavam sendo nocivas e me livrar de maus hábitos. Sem este dispêndio todo de energia, me sobra muito mais espaço e tempo.

Espaço-tempo para apenas Ser.

Minha amiga Fulana me ligou uma noite destas. Eu já estava quase dormindo, mas assim que percebi seu tom de voz, percebi que algo sério estava acontecendo. Quando perguntei qual era o problema, pude ouvir Fulana acendendo um cigarro antes de responder:

- O problema – começou Fulana histérica – é que a minha vida amorosa é um maldito jogo de WAR!

- Como? – Perguntei acendendo a luz do abajur para me certificar de que não estava sonhando. – A sua vida amorosa é um... O quê?

- É um jogo de WAR! Você se lembra daquele jogo que a gente jogava nas tardes chuvosas de verão na praia, que tinha como objetivo conquistar sei lá quantos continentes, tipo a América do Sul, a Europa e mais um à sua escolha? Ou dezoito territórios? Ou simplesmente destruir totalmente os exércitos verdes, ou vermelhos, ou pretos, ou...

- Sim, me lembro! – Apressei-me em responder. Eu tinha a esperança de o papo ser rápido para que eu pudesse voltar a dormir, já que iria madrugar no dia seguinte.

- Então você se lembra de como funcionava: amontoávamos pecinhas e mais pecinhas nos territórios vizinhos e decidíamos a disputa no lance de dados. O derrotado tirava suas pecinhas do território e o vencedor colocava as suas, e naquele de onde partira o ataque ficava geralmente uma única pecinha, cuja utilidade era apenas demarcar o território, que virava um posto importante de passagem para as tropas que viriam a seguir, na próxima rodada. Uma pecinha só, só para marcar o território! – Pude ouvir Fulana dando um trago profundo no cigarro. – E eu sou um maldito território conquistado e deixado para trás com uma única e maldita peça! Posso até sentir o peso da pecinha sobre a minha cabeça!

Fulana passou então a me colocar a par dos últimos acontecimentos de sua vida amorosa. Segundo ela, um professor com quem havia tido um breve affair no ano passado havia voltado a procurá-la.

- Você se lembra da história. Enquanto ele dava um tempo com a namorada nos conhecemos e ficamos juntos, mas o relacionamento era complicado e depois de muita insistência, resolveu dar mais uma chance a ela. E ele foi muito honesto comigo, o que eu valorizei bastante, você se lembra?

Sim, eu me lembrava. Seria impossível não me lembrar, já que na época Fulana não falava em outra coisa. Segundo ela, os dois nunca mais haviam se encontrado.

- Na semana passada nos encontramos novamente, e ele logo fez questão de dizer que havia terminado definitivamente o relacionamento. Me chamou para sair, eu não podia no dia, ele me ligou naquela mesma noite e conversamos à beça. Depois me disse que telefonaria para fazermos algo durante a semana... E sumiu! Isso já faz mais de uma semana, e nada!

Mas o que isso tinha a ver com o jogo de WAR?

- Amiga! – Gritou Fulana, o que me fez perder totalmente as esperanças de voltar ao sono rapidamente. – Você não ouviu nada do que eu disse? Eu sou apenas um território estepe, enquanto ele vaga entre objetivos distintos! Eu sou um posto de reabastecimento de seu ego masculino e orgulho de si mesmo, enquanto ele decide o que fazer da vida! E eu, a boba, enquanto isso – mais um trago no cigarro – fico ligando do fixo no meu celular a cada cinco minutos, para ver se está funcionando ou caindo direto na caixa postal!

Sentei-me na cama e, enquanto me ajeitava para os longos minutos que viriam pela frente, tive que admitir: não sei de onde é que Fulana tira suas histórias, mas que elas sempre fazem algum sentido, ah, isso fazem.

4U


O que sobrou foi o carinho. Siga seu caminho, seja feliz.


Nada me parece mais natural e auspicioso do que os ventos bons que me trazem velhas e novas pessoas, além dos amigos que lentamente se aproximam do meu coração e me fazem gostar mais de mim mesma em sua companhia. Gentilezas, palavras atenciosas e gestos mais ainda, convites surpreendentes e inusitados daqueles que eu achei já terem morrido dentro de mim. O novo se apresenta e invade meu quarto pela janela, agitando as cortinas dos meus olhos com formas e cores surpreendentes. Me espanta perceber que, a despeito de tudo e todos, o novo me traz mais de mim. Eu me reconheço em cada palavra proferida, em cada sorriso pronunciado, em cada pensamento breve e ansioso diante dos dias que se aproximam certeiros, tal qual flecha bem direcionada. Procuro o medo dentro de mim e constato que ele não há; foram-se os dias de espera tensa diante de palavras que morreram na garganta de quem pensava demais. Foram-se os dias de angústia mal contida e de incômodos persistentes que agitavam minha alma como um vento que se transformava em fogo. Nada mais há dentro de mim que justifique algo além da alegria de sentir-me cada vez mais próxima de mim mesma, enquanto me encanto com ângulos de minha própria vida que me eram desconhecidos. No mais, traduzo-me na inconstância da espera. A lenha já está na lareira e meu bule no fogo, aguardando a chegada do que sempre almejei. É noite, e a Lua brilha lá fora.



A vida é mesmo uma coisa incrível. Tem dias que começam em um tom de cinza e terminam em outro, profundamente cinza, mas completamente diferente. Porque dia de gente como eu começa com Vanessa da Mata cantando no meu ouvido às seis da manhã, enquanto a chuva fina cai lá fora. Porque o meu tempo é sempre curto e de um jeito ou de outro eu sempre acabo me atrasando. E quando a cor predominante é o branco, o poder de tirar a dor literalmente com as mãos me maravilha e orgulha. Cansa, fatiga, as costas doem e a cabeça pesa com tantas informações que formam um quebra-cabeça. A ingenuidade do pensamento me encanta e eu me apaixono lentamente por todos os ventos e fogos que me apresentam. Me fascinam as cores e as nuances dos milhares de tons existentes entre o branco e o preto. Todos os inúmeros tons de cinza, que é também a cor daqueles olhos dos quais eu sentia saudade. Olhos cor de cinza que me sorriem e me contam novidades quando seu perfume me invade anunciando mais um corte. Estes olhos cor de cinza que sempre piscam na minha direção quando eu preciso que tirem a minha dor com as mãos, estes olhos arrancam a dor do meu apego pela raiz. E ganham mais brilho entre taças de vinho e possibilidades novas, que sempre se anunciam quando eu preciso me lembrar que existe o mais além. Estes olhos cor de cinza me absorvem e eu me deixo afundar nesta cor que, lentamente, se torna um arco-íris em si mesma.

A verdade é que eu nunca gostei muito de Friends porque nunca tinha assistido na seqüência, então não entendia as histórias e, principalmente, aquela lenga-lenga toda do Ross com a Rachel. Achava chato, tava na cara que eles iam ficar juntos, prá que demorar 10 anos e 10 temporadas prá isso acontecer?

Continuo sem entender como é que os roteiristas conseguiram enrolar tanto assim o grand-finale. Mas a verdade é que ontem eu estava assistindo o episódio em que o Ross descobre, ainda na segunda temporada, que a Rach ta a fim dele.
Ele fica puto porque ele tá namorando a sem-gracinha-Julie e a Rachel tá estragando tudo, daí ela fica puta porque nunca teve a chance de falar isso prá ele, daí ele a chama de patricinha mimada e briga com ela, ela o chama de paleontólogo chato, ele fica puto e sai do Central Perk gritando aquele “fine!” que é tão característico dele, ela tem um acesso de raiva e passa todas as setenta trancas que um café em frente ao Central Park precisa ter, senta no sofá e quase arranca os cabelos de raiva... Quando olha prá trás e vê que ele voltou, daí ela abre as setenta trancas (uma emperra, evidentemente, e eles ficam um tempo presos um de cada lado da porta de vidro), daí eles se olham e daí eles se beijam.

Daí eu chorei.
Mesmo sabendo que eles vão ficar juntos dali à oito anos, chorei que nem boba.

E daí eu pensei em quanto tempo ainda vai demorar para que apareça finalmente o Ross da vida desta Rachel que vos fala.








"Prefiro abrir meu coração até que se transforme em um par de asas, em uma tocha, em uma promessa".
Dawna Markove


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    ... e não me peçam para ser vento, se sou tufão...

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