Cenário: Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Uma mulher na casa dos 30 toma café, enquanto folheia uma revista. Alterna sua atenção entre a xícara fumegante, a publicação e o celular, que apita o tempo todo. Sem que ela perceba, um homem também de seus trinta e pouco a observa, da bancada onde ficam as publicações de idioma estrangeiro.
A área do café está lotada e diversas pessoas anseiam por um lugar vazio. É uma manhã chuvosa, e mentes inquietas precisam de uma boa dose de cafeína para conseguir suportar o dia útil sem diminuir seus índices de produtividade. Quando uma mesa próxima à da moça fica vaga, ele se apressa em ocupar o lugar, sem notar os olhares furiosos de duas moças que se precipitavam na direção dos assentos livres.
Ele fita o cardápio, desinteressadamente. Não desvia sua atenção da morena de cabelos no meio das costas e algumas tatuagens espalhadas pelo corpo. Ela dá um gole do café, manuseia o celular e arruma uma mecha de cabelo atrás da orelha. Finalmente parece notar que é observada e volta o olhar na direção dele, que sorri. Ela sorri de volta, com a expressão curiosa. Ele é bonito, com seus cabelos mais compridos do que o corte original deveria requerer; grandes olhos azuis piscam na direção dela.
Ele _ Me desculpe, mas tenho a nítida sensação de que te conheço de algum lugar.
Ela _ Ah. Isso acontece bastante. Acho que tenho um rosto bem comum.
Ele _ Eu não diria isso. – Mais um sorriso.
Ela ergue as sobrancelhas, entre espantada e divertida. Não é sempre que recebe um elogio nas entrelinhas de um bonitão na Livraria Cultura – onde os bonitões costumam, mais cedo ou mais tarde, elogiar nas entrelinhas outros bonitões.
Ele _ Sério mesmo. Estava ali dando uma olhada nos livros e não conseguia parar de olhar prá você. Acho que a gente se conhece.
Ela _ De onde? Na época da faculdade sempre me confundiam com uma menina chamada Renata. Teve uma época em que eu sabia até que ela estudava na FAAP e que namorava um cara que jogava golf. Isso ficou marcado na minha cabeça: que tipo de adolescente joga golf?
Ele _ O tipo que tem dinheiro suficiente prá andar num carrinho elétrico, além de uma ótima mira. – Ele sorri, voltando os olhos na direção da cadeira vazia na mesa onde ela está sentada. – Posso?
Ela pensa durante meio minuto e sorri de volta, assentindo. Fecha a revista, colocando-a de lado. Que mal pode ter uma conversa jogada fora, enquanto faz hora para o próximo compromisso e a chuva cai lá fora, em um prenúncio do péssimo clima do final de semana? As duas moças que aguardavam uma mesa livre quase se jogam sobre a recém liberada. Olham feio na direção dos dois.
Ele _ Muito prazer, meu nome é G.
Ela _ Oi, sou a F. – O homem estende a mão; o cumprimento é firme. Ela sempre se encanta quando um desconhecido a cumprimenta “shaking hands” - muito mais adequado do que aproximar o rosto e colar bochechas, beijando o ar. Ele afasta a cadeira vazia e se senta; usa um perfume suave, que a lembra da adolescência e do primeiro namorado.
Ele _ Eu comentaria que o tempo está terrível e que o final de semana vai ser tenebroso, mas realmente não consigo parar de pensar como seu rosto me é familiar. Você tem que me ajudar nisso.
Ela _ Sério mesmo? Sou péssima para lembrar nomes, mas geralmente sou uma boa fisionomista.
Ele _ Eu sou ruim nas duas coisas, mas essa sua tatuagem me é muito familiar. O que você faz?
Ela faz um breve resumo de sua vida profissional. Diz no que se formou, e no que está trabalhando agora. Também conta que está ali apenas matando tempo livre, já que estava nas redondezas, a chuva a pegou desprevenida e ainda tem uma hora até o próximo compromisso. Ele ergue uma sobrancelha, parecendo surpreso, mas ela está acostumada a isso: não trabalha com uma coisa muito comum, e a maioria das pessoas tem a mesma reação quando a ouvem falar sobre seu trabalho. Lhe estende um cartão, costume recém-adquirido e que tem lhe rendido alguns atendimentos esporádicos. Quando conta que morou do outro lado do mundo ele solta uma risada.
Ele _ Rá! Eu viajei para lá dois anos atrás. Não é possível que seja de lá que te conheço.
Uma suspeita se forma no interior dela. Se ela imaginá-lo de cabeça raspada, quase consegue visualizá-lo em outro cenário, com um cigarro entre os lábios e um copo de Mojito nas mãos. Procura insistentemente pelo rótulo da gaveta de onde a lembrança emerge, mas não encontra nada.
Ele _ Estive na cidade entre fevereiro e maio de 2010.
Ela _ Eu fiquei lá de março a setembro... Mas seria muito esquisito se isso acontecesse, porque me lembro muito bem de todos os brasileiros que eu conheci na minha temporada lá, e inclusive mantenho contato com a maioria deles.
Fazem um breve relato de suas experiências do outro lado do planeta. Ele é advogado e trabalha na área de direito sobre logotipo. Tem 34 anos, mora em um bairro nas proximidades mas viaja muito a trabalho, tendo acabado de voltar de uma temporada de dois meses na Itália. Comenta que já passou três temporadas no país do macarrão, e que fala italiano fluentemente.
Como uma bomba que começa a estourar e não pára mais, a lembrança é reativada na cabeça dela. Ele, a cabeça raspada, os olhos claros, o cigarro entre os lábios – o copo de Mojito na mão. A paisagem que se forma atrás dele é um bar de Jazz, onde ela esteve algumas vezes na companhia de amigos, do outro lado do globo. Naquela noite em específico estava sozinha – uma das noites solitárias de sexta-feira em que ela decidira que estava quente demais e claro demais para ficar sozinha no seu dormitório, escutando “Pro Dia Nascer Feliz” e morrendo de saudades de casa. Recordou do barulho das bolas de sinuca batendo umas nas outras, que atraíram sua atenção na direção da mesa de bilhar onde alguns rapazes disputavam animados uma partida. Quando perceberam que ela os fitava, comentaram alguma coisa a seu respeito em um idioma que ela reconheceu como sendo italiano. Buscara, em outras gavetas da sua memória, aquela que continha as lições gramaticais do idioma, que estudara por mais de dez anos no colegio que frequentara a vida toda. Não havia conseguido.
Uma voz havia lhe dito, vinda do lado direito, em inglês: “Eles estão dizendo que você é bonita e que deve ser australiana”. Ela havia respondido que geralmente achavam que ela era italiana, mas que na verdade era brasileira. Ele havia rido muito e dito que também era brasileiro, e haviam iniciado uma conversa animada em português. Infelizmente, menos de cinco minutos depois, uma chinesa bonita voltara do banheiro e sorrira, provocante, na direção dele. Beijara-o na mais clara intenção de demonstrar que ele já estava acompanhado. Ele ficara sem graça; ela virara o copo de cerveja escura “like there was no tomorrow”. O casal se afastara.
Não se lembrava muito mais daquela noite – apenas que conhecera uma cubana e dois australianos e que, juntos, haviam ido a uma casa noturna do outro lado da cidade, onde tubarões nadavam em um aquário enorme que refletia sua imagem enquanto ela tomara mais uma dose de vodka – ou teria sido um Cosmopolitan? Havia mais uma lembrança – de tê-lo cruzado na mesma casa noturna, desta vez na companhia de uma alemã muito loura e tatuada. Pelo visto não havia sido apenas nas suas tatuagens que ele reparara. Lembrava-se também que ele havia pegado seu numero de telefone, prometendo telefonar-lhe no dia seguinte. Ela havia dado o número – sentia-se sozinha e mesmo a companhia de um brasileiro mulherengo no Oriente era, algumas vezes, melhor do que nada. Mas ele nunca telefonara. E, depois de migrar para uma outra casa noturna na companhia de seus mais novos melhores amigos de infância e de dois japoneses que haviam se unido ao grupo, ela havia se esquecido completamente dele e da promessa do telefonema.
De volta ao café na Livraria Cultura: continuam a conversa. Ela o fita de um jeito diferente. Ele continua encafifado – tem certeza de que se conhecem, mas ela é evasiva. O mundo girou, ela não é mais aquela que se sentia sozinha e que preferia a companhia de qualquer um à sua própria. Quando a hora de ir embora chega, ele se oferece para pagar-lhe o café; ela aceita, assim como também aceita manter contato - afinal, seu cartão já estava dentro do bolso da camisa chique que ele usava. Despedem-se não mais com um aperto de mãos, e sim encostando as bochechas e beijando o ar. Não sente mais o perfume que a lembrou do primeiro namorado.
Ele diz que vai ligar, mas ela sabe que ele nem sempre cumpre suas promessas.
Uma mulher na casa dos 30 toma café, enquanto folheia uma revista. Alterna sua atenção entre a xícara fumegante, a publicação e o celular, que apita o tempo todo. Sem que ela perceba, um homem também de seus trinta e pouco a observa, da bancada onde ficam as publicações de idioma estrangeiro.
A área do café está lotada e diversas pessoas anseiam por um lugar vazio. É uma manhã chuvosa, e mentes inquietas precisam de uma boa dose de cafeína para conseguir suportar o dia útil sem diminuir seus índices de produtividade. Quando uma mesa próxima à da moça fica vaga, ele se apressa em ocupar o lugar, sem notar os olhares furiosos de duas moças que se precipitavam na direção dos assentos livres.
Ele fita o cardápio, desinteressadamente. Não desvia sua atenção da morena de cabelos no meio das costas e algumas tatuagens espalhadas pelo corpo. Ela dá um gole do café, manuseia o celular e arruma uma mecha de cabelo atrás da orelha. Finalmente parece notar que é observada e volta o olhar na direção dele, que sorri. Ela sorri de volta, com a expressão curiosa. Ele é bonito, com seus cabelos mais compridos do que o corte original deveria requerer; grandes olhos azuis piscam na direção dela.
Ele _ Me desculpe, mas tenho a nítida sensação de que te conheço de algum lugar.
Ela _ Ah. Isso acontece bastante. Acho que tenho um rosto bem comum.
Ele _ Eu não diria isso. – Mais um sorriso.
Ela ergue as sobrancelhas, entre espantada e divertida. Não é sempre que recebe um elogio nas entrelinhas de um bonitão na Livraria Cultura – onde os bonitões costumam, mais cedo ou mais tarde, elogiar nas entrelinhas outros bonitões.
Ele _ Sério mesmo. Estava ali dando uma olhada nos livros e não conseguia parar de olhar prá você. Acho que a gente se conhece.
Ela _ De onde? Na época da faculdade sempre me confundiam com uma menina chamada Renata. Teve uma época em que eu sabia até que ela estudava na FAAP e que namorava um cara que jogava golf. Isso ficou marcado na minha cabeça: que tipo de adolescente joga golf?
Ele _ O tipo que tem dinheiro suficiente prá andar num carrinho elétrico, além de uma ótima mira. – Ele sorri, voltando os olhos na direção da cadeira vazia na mesa onde ela está sentada. – Posso?
Ela pensa durante meio minuto e sorri de volta, assentindo. Fecha a revista, colocando-a de lado. Que mal pode ter uma conversa jogada fora, enquanto faz hora para o próximo compromisso e a chuva cai lá fora, em um prenúncio do péssimo clima do final de semana? As duas moças que aguardavam uma mesa livre quase se jogam sobre a recém liberada. Olham feio na direção dos dois.
Ele _ Muito prazer, meu nome é G.
Ela _ Oi, sou a F. – O homem estende a mão; o cumprimento é firme. Ela sempre se encanta quando um desconhecido a cumprimenta “shaking hands” - muito mais adequado do que aproximar o rosto e colar bochechas, beijando o ar. Ele afasta a cadeira vazia e se senta; usa um perfume suave, que a lembra da adolescência e do primeiro namorado.
Ele _ Eu comentaria que o tempo está terrível e que o final de semana vai ser tenebroso, mas realmente não consigo parar de pensar como seu rosto me é familiar. Você tem que me ajudar nisso.
Ela _ Sério mesmo? Sou péssima para lembrar nomes, mas geralmente sou uma boa fisionomista.
Ele _ Eu sou ruim nas duas coisas, mas essa sua tatuagem me é muito familiar. O que você faz?
Ela faz um breve resumo de sua vida profissional. Diz no que se formou, e no que está trabalhando agora. Também conta que está ali apenas matando tempo livre, já que estava nas redondezas, a chuva a pegou desprevenida e ainda tem uma hora até o próximo compromisso. Ele ergue uma sobrancelha, parecendo surpreso, mas ela está acostumada a isso: não trabalha com uma coisa muito comum, e a maioria das pessoas tem a mesma reação quando a ouvem falar sobre seu trabalho. Lhe estende um cartão, costume recém-adquirido e que tem lhe rendido alguns atendimentos esporádicos. Quando conta que morou do outro lado do mundo ele solta uma risada.
Ele _ Rá! Eu viajei para lá dois anos atrás. Não é possível que seja de lá que te conheço.
Uma suspeita se forma no interior dela. Se ela imaginá-lo de cabeça raspada, quase consegue visualizá-lo em outro cenário, com um cigarro entre os lábios e um copo de Mojito nas mãos. Procura insistentemente pelo rótulo da gaveta de onde a lembrança emerge, mas não encontra nada.
Ele _ Estive na cidade entre fevereiro e maio de 2010.
Ela _ Eu fiquei lá de março a setembro... Mas seria muito esquisito se isso acontecesse, porque me lembro muito bem de todos os brasileiros que eu conheci na minha temporada lá, e inclusive mantenho contato com a maioria deles.
Fazem um breve relato de suas experiências do outro lado do planeta. Ele é advogado e trabalha na área de direito sobre logotipo. Tem 34 anos, mora em um bairro nas proximidades mas viaja muito a trabalho, tendo acabado de voltar de uma temporada de dois meses na Itália. Comenta que já passou três temporadas no país do macarrão, e que fala italiano fluentemente.
Como uma bomba que começa a estourar e não pára mais, a lembrança é reativada na cabeça dela. Ele, a cabeça raspada, os olhos claros, o cigarro entre os lábios – o copo de Mojito na mão. A paisagem que se forma atrás dele é um bar de Jazz, onde ela esteve algumas vezes na companhia de amigos, do outro lado do globo. Naquela noite em específico estava sozinha – uma das noites solitárias de sexta-feira em que ela decidira que estava quente demais e claro demais para ficar sozinha no seu dormitório, escutando “Pro Dia Nascer Feliz” e morrendo de saudades de casa. Recordou do barulho das bolas de sinuca batendo umas nas outras, que atraíram sua atenção na direção da mesa de bilhar onde alguns rapazes disputavam animados uma partida. Quando perceberam que ela os fitava, comentaram alguma coisa a seu respeito em um idioma que ela reconheceu como sendo italiano. Buscara, em outras gavetas da sua memória, aquela que continha as lições gramaticais do idioma, que estudara por mais de dez anos no colegio que frequentara a vida toda. Não havia conseguido.
Uma voz havia lhe dito, vinda do lado direito, em inglês: “Eles estão dizendo que você é bonita e que deve ser australiana”. Ela havia respondido que geralmente achavam que ela era italiana, mas que na verdade era brasileira. Ele havia rido muito e dito que também era brasileiro, e haviam iniciado uma conversa animada em português. Infelizmente, menos de cinco minutos depois, uma chinesa bonita voltara do banheiro e sorrira, provocante, na direção dele. Beijara-o na mais clara intenção de demonstrar que ele já estava acompanhado. Ele ficara sem graça; ela virara o copo de cerveja escura “like there was no tomorrow”. O casal se afastara.
Não se lembrava muito mais daquela noite – apenas que conhecera uma cubana e dois australianos e que, juntos, haviam ido a uma casa noturna do outro lado da cidade, onde tubarões nadavam em um aquário enorme que refletia sua imagem enquanto ela tomara mais uma dose de vodka – ou teria sido um Cosmopolitan? Havia mais uma lembrança – de tê-lo cruzado na mesma casa noturna, desta vez na companhia de uma alemã muito loura e tatuada. Pelo visto não havia sido apenas nas suas tatuagens que ele reparara. Lembrava-se também que ele havia pegado seu numero de telefone, prometendo telefonar-lhe no dia seguinte. Ela havia dado o número – sentia-se sozinha e mesmo a companhia de um brasileiro mulherengo no Oriente era, algumas vezes, melhor do que nada. Mas ele nunca telefonara. E, depois de migrar para uma outra casa noturna na companhia de seus mais novos melhores amigos de infância e de dois japoneses que haviam se unido ao grupo, ela havia se esquecido completamente dele e da promessa do telefonema.
De volta ao café na Livraria Cultura: continuam a conversa. Ela o fita de um jeito diferente. Ele continua encafifado – tem certeza de que se conhecem, mas ela é evasiva. O mundo girou, ela não é mais aquela que se sentia sozinha e que preferia a companhia de qualquer um à sua própria. Quando a hora de ir embora chega, ele se oferece para pagar-lhe o café; ela aceita, assim como também aceita manter contato - afinal, seu cartão já estava dentro do bolso da camisa chique que ele usava. Despedem-se não mais com um aperto de mãos, e sim encostando as bochechas e beijando o ar. Não sente mais o perfume que a lembrou do primeiro namorado.
Ele diz que vai ligar, mas ela sabe que ele nem sempre cumpre suas promessas.
... and then she couldn't help on wondering, "who needs a boyfriend when you have the city to be your date?".
(take her, she's precious)
Post by Flavia Melissa
em Wednesday, November 30, 2011 as 11:07 PM. (take her, she's precious)
Status de relacionamento dele: em um relacionamento sério.
Status de relacionamento dela: curtindo-se pelo Facebook.
#systemfailure
Post by Flavia Melissa
em Saturday, November 26, 2011 as 9:15 AM. Status de relacionamento dela: curtindo-se pelo Facebook.
#systemfailure

"Se você se apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo, fique com a que veio depois; se você realmente estivesse apaixonado pela primeira, não se apaixonaria pela segunda".
- Sabedoria Popular

Ninguém disse que seria fácil, mas também ninguém avisou que seria assim.
Quando eu era pequena e me falavam a respeito de um pote de ouro que existiria ao final de todo arco-íris, ninguém disse que existiam cores frias e cores quentes. Ninguém disse o quão geladas elas poderiam ser na ausência do sol, nem quanto poderiam queimar sem uma brisa suave qualquer.
Quando me ensinaram a mergulhar, ninguém se lembrou de me alertar que às vezes a piscina poderia estar sem água. Ou que na doces águas se afunda mais rápido do que na salgada. E que, no mar, a gente não pode engolir água se sentir sede, porque se não morre mais rápido. Me ensinaram que peixe grande com barbatana era perigoso, mas nunca me disseram que golfinho também é grande e tem barbatana, e ai!, que tantos deles passaram por mim e eu fugi, perdida no meu medo.
Quando me mostraram que existiam coisas que voavam, tinham asas mas não eram pássaros eu abri a minha boca e não acreditei que, quem quer que fosse que subisse naquilo, poderia voltar são e salvo. Eu senti medo ao vestir o capacete, eu senti borboletas no estômago quando apertaram o cinto de segurança e senti o coração sair pela boca quando ganhei os céus. E, naquele dia, quando meu pai me mandou segurar firme o manche, eu segurei, mas fechei meus olhos e não notei que era eu, tão pequena eu, quem nos manteve acima das nuvens.
Quando me mostraram que eu deveria pegar areia únida para servir de base para construir meu castelos na praia, não me disseram que ela também secava quando exposta ao sol, e que o destino de qualquer construção de areia seria a destruição. Sendo assim, eu não entendi que tudo é efêmero, que o passado pode ser tão real quanto o presente mas que, o futuro, é uma grande bexiga colorida prestes a estourar. Eu não entendia quando via aquelas mulheres de branco jogando flores na água porque não sabia que, lá no fundo, haveria alguém a recebê-las.
Quando aprendi que plantas davam frutos e que, às vezes, deveríamos torrá-los para que fossem mais saborosos, ninguém me disse que também o ouro passa pelo calor do fogo para ser purificado. E que, ao usar protetor solar, apenas aumentamos o fator de proteção de nossa própria pele, ninguém me disse que eu seria capaz de suportar minhas próprias dores para me transformar em um ser humano melhor.
Quando entendi que lagartas e borboletas não eram animais distintos eu senti nojo, e não entendi que todos nós temos que passar pelo aprisionamento do casulo para, um dia, colorir os jardins da vida. Não percebi que existia um sofrimento genuíno ali envolvido, não cogitei o quanto deveria doer ter aquelas asas enormes saindo de um corpinho tão delgado. Não me dei conta de que, afinal de contas, eu também era uma lagarta que em breve encararia a clausura do casulo.
E o casulo dói, mas também liberta. Liberta porque, na escuridão, nenhuma cor é fria ou quente demais. Na escuridão do casulo a umidade não sufoca e nem afoga, apenas protege, amolecendo a pele para que as asas finalmente saiam. No escuro lá de dentro, todos os castelos de areia podem ser eternos pois nunca chegam, de fato, a serem finalizados, sempre mudam, sempre mudam.
E foi sozinha que eu aprendi sobre inconstância e impermanência, que regem o ciclo de vida de todas as plantas, de todas as bexigas coloridas, de todas as meninas que, aos 7 anos, são capazes de ficar no sol com FPS 2 sem se queimar. Que seguram firme seus manches e se mantém acima das nuvens.
Quando eu era pequena e me falavam a respeito de um pote de ouro que existiria ao final de todo arco-íris, ninguém disse que existiam cores frias e cores quentes. Ninguém disse o quão geladas elas poderiam ser na ausência do sol, nem quanto poderiam queimar sem uma brisa suave qualquer.
Quando me ensinaram a mergulhar, ninguém se lembrou de me alertar que às vezes a piscina poderia estar sem água. Ou que na doces águas se afunda mais rápido do que na salgada. E que, no mar, a gente não pode engolir água se sentir sede, porque se não morre mais rápido. Me ensinaram que peixe grande com barbatana era perigoso, mas nunca me disseram que golfinho também é grande e tem barbatana, e ai!, que tantos deles passaram por mim e eu fugi, perdida no meu medo.
Quando me mostraram que existiam coisas que voavam, tinham asas mas não eram pássaros eu abri a minha boca e não acreditei que, quem quer que fosse que subisse naquilo, poderia voltar são e salvo. Eu senti medo ao vestir o capacete, eu senti borboletas no estômago quando apertaram o cinto de segurança e senti o coração sair pela boca quando ganhei os céus. E, naquele dia, quando meu pai me mandou segurar firme o manche, eu segurei, mas fechei meus olhos e não notei que era eu, tão pequena eu, quem nos manteve acima das nuvens.
Quando me mostraram que eu deveria pegar areia únida para servir de base para construir meu castelos na praia, não me disseram que ela também secava quando exposta ao sol, e que o destino de qualquer construção de areia seria a destruição. Sendo assim, eu não entendi que tudo é efêmero, que o passado pode ser tão real quanto o presente mas que, o futuro, é uma grande bexiga colorida prestes a estourar. Eu não entendia quando via aquelas mulheres de branco jogando flores na água porque não sabia que, lá no fundo, haveria alguém a recebê-las.
Quando aprendi que plantas davam frutos e que, às vezes, deveríamos torrá-los para que fossem mais saborosos, ninguém me disse que também o ouro passa pelo calor do fogo para ser purificado. E que, ao usar protetor solar, apenas aumentamos o fator de proteção de nossa própria pele, ninguém me disse que eu seria capaz de suportar minhas próprias dores para me transformar em um ser humano melhor.
Quando entendi que lagartas e borboletas não eram animais distintos eu senti nojo, e não entendi que todos nós temos que passar pelo aprisionamento do casulo para, um dia, colorir os jardins da vida. Não percebi que existia um sofrimento genuíno ali envolvido, não cogitei o quanto deveria doer ter aquelas asas enormes saindo de um corpinho tão delgado. Não me dei conta de que, afinal de contas, eu também era uma lagarta que em breve encararia a clausura do casulo.
E o casulo dói, mas também liberta. Liberta porque, na escuridão, nenhuma cor é fria ou quente demais. Na escuridão do casulo a umidade não sufoca e nem afoga, apenas protege, amolecendo a pele para que as asas finalmente saiam. No escuro lá de dentro, todos os castelos de areia podem ser eternos pois nunca chegam, de fato, a serem finalizados, sempre mudam, sempre mudam.
E foi sozinha que eu aprendi sobre inconstância e impermanência, que regem o ciclo de vida de todas as plantas, de todas as bexigas coloridas, de todas as meninas que, aos 7 anos, são capazes de ficar no sol com FPS 2 sem se queimar. Que seguram firme seus manches e se mantém acima das nuvens.

Eu gosto de você porque você é sincera. Você não tem medo de mostrar quem você é, mesmo que não saiba muito bem quem é, de fato. Eu gosto da sua coragem, de se assumir, de contar da sua vida e da sua historia. No seu lugar, não sei se conseguiria ser igual. Eu vivo pegando o meu passado e passando uma maquiagem prá ver se fica mais bonito; daí, exibo para as pessoas prá ver se consigo obter delas o reconhecimento que eu mesma não consigo obter de mim. Eu gosto dos seus olhos, que dizem mais do que mil palavras. Mas os seus olhos têm um brilho doentio, que não é seu de fato; é este brilho que distorce a realidade, e é por isso que você não enxerga o mundo como ele é. É como se o próprio mundo brilhasse demais – e aí você veste óculos em tons de cinza, que tiram um pouco do colorido do mundo. Mas eu gosto de você porque tem coragem de dizer que este mundo pode não ser tão colorido quanto as pessoas dizem que é (“ela acreditava em anjos e, por isso, eles existiam” – Clarice Linspector). Eu gosto quando você tenta ajudar alguém. Você consegue ser realmente inspiradora, não importa cmo você realmente se sinta em relação à sua vida – não importa se você tem uma equipe multidisciplinar ou não, você aconselha aos outros que a tenham. Você recomenda que procurem um psiquiatra, mesmo que deteste a sua; você aconselha a psicoterapia, mesmo que tenha a certeza que ninguém no mundo vai te entender e te ajudar. Eu gosto de você porque gosto de contradições. Porque eu gosto de paradoxos. Porque eu não lido bem com os meus próprios paradoxos. Eu gosto de você... Porque você me faz lembrar de mim, de uma fase negra da minha vida, de uma fase em peto e branco, de desesperança... E se eu pudese voltar no tempo e me dar colo, cuidar de mim, ser mais amena, mais suave... eu seria. Mas eu não posso. Não posso voltar no tempo, fazer diferente – mas posso te ajudar a se salvar, eu sei que posso. Posso te ajudar a ver que o mundo é muito mais do que já viveu até agora. Posso te contar dos lugares que eu já fui, das pessoas que conheci, dos homens que amei, dos amigos que foram minha família em uma época em que a familia não era minha amiga. Posso te contar que aprendi a amar aqueles que eu odiava. Posso tentar te convencer que você é linda, que seu corpo é um templo, que seu cabelo brilha... Mesmo que você pese 37 quilos, seus dentes estejam descalcificados, seus cabelos quebradiços e você se ache gorda e feia. Eu gosto de você porque eu me vejo em você. E se eu conseguir te ajudar... vou estar fazendo por alguém o que eu gostaria que tivessem feito por mim; porque eu nunca tentei o suicídio, mas não faltou vontade. Eu queria ter sabido, naquela época, como seria o meu futuro – teria sofrido bem menos. Eu queria que tivesse me enxergado como eu era: linda, inteligente, engraçada... Eu era digna de receber amor dos outros! Mas eu não fiz nada disso, e fui infeliz por anos, sem necessidade. Eu quero que você seja feliz, que saiba que tudo isso que você sente vai passar, que a sua vida tem valor, que pode ser muito mais do que está sendo... basta que você se dê a chance. Basta isso: que você se dê a chance.

Caçava histórias de amor tal qual os piratas do passado caçavam mapas de tesouros: obstinadamente, como se disso dependesse sua vida. Dependia da sensação de encantamento para sentir sua existência validada; era como se, sozinha, não possuiísse valor absoluto – eterna aplicadora da teoria da relatividade a relacionamentos humanos!
Perdeu-se em muitas bocas; muitos braços a envolveram. Dependendo do amor tanto assim, de fato o encontrava com frequência. Sim, e era amor, não tolerava aqueles que lhe diziam o contrário – era o único amor que conhecia, pautado em necessidades que justificassem sua dedicação a outra causa que não fosse sua própria. Esquecia-se de si mesma. Encontrara o amor facilmente em pessoas que se espantavam com tamanha beleza e inteligência a ser-lhes dedicada, ofertada em bandeja de prata trabalhada pelas boas escolas nas quais estudara e nos idiomas que escapavam pela sua boca. Caminhava com tanta fluência pela vida que se tornava irresistível àqueles para os quais ela era deslumbre. Ah, os deslumbrados. Os deslumbrados que a enalteciam, a colocavam em pedestais e a preenchiam com reconhecimento e valorização. Regojizava-se. As mariposas acinzentadas e enegrecidas que habitavam seu estômago eram substituídas por coloridas borboletas, enquanto amava.
Os períodos de solidão, que nunca duravam muito, exímia caçadora que era, eram preenchidos por indagações sobre os sentidos da vida: deveriam ser muitos, ela supunha. O amor, o amor, o amor era o mais importante; a certeza assolava-lhe o peito: sem o amor nada seria! O amor substituía outras fontes de satisfação – não, não podia abandonar o amor. Não podia abandonar sua busca, sua eterna busca, aquilo que a alimentava, aquilo que a fazia suspirar. Não percebia que amava como criança – amava a sensação de enamoramento, amava o encantamento, amava a predisposição – inata, cria – a deixar de ser si para ser do outro. Amava o amor, não as pessoas, sempre erradas. Sua própria essência adquiria outras curvas e formatos quando amava – relativizava-se; não o notava.
Um dia cresceu, e quis não um amor, mas o amor – absoluto. Um amor que ficasse, que construísse, que germinasse; não o encontrou em nenhum dos tufões que assolavam sua vida bagunçando-lhe os cabelos. Ninguém tolera um tufão tanto tempo assim, o bom senso é procurar um abrigo, esconderijo seguro, e tentar respirar até que a ventania acabe; não, ele tinha de estar mais além. Tinha de estar detrás dos morros altos que escondiam o horizonte mais à frente, onde a brisa era mansa e apenas acariciaria sua pele. Um amor para germinar teria que durar – os seus nunca duravam, permaneciam enquanto ela amava o amor; quando a pessoa se apresentava ela se perdia: ainda não, aindão não este, ainda não com essa vida. Está além, deve estar além!
Além das mini-poesias, além dos mini-contos: além dos mini-amores abandonados em esquinas escuras onde a água encontrava a terra, em lembranças de algumas pessoas certas que cruzaram seu caminho mas que demandavam tempo a serem desvendadas. Ela não tivera paciência. Queria muito e queria logo, queria quem a amasse e a enaltecesse como os pagões enalteciam estátuas de pedra, sem nunca encontrar Deus de fato. Tantas pessoas certas a estiveram observando e ela nunca as notara, embevecida pela adoração das pessoas erradas, que rapidamente se entregavam porque ela era, sim, jóia rara. As pessoas certas, onde estariam? Agora as odiava – odiava as pessoas certas na mesma intensidade com que amara as erradas! Odiava as pessoas certas e seus mini-pedidos de desculpas – não a esperei, mas veja só, você é realmente especial. Odiava as pessoas certas e suas mini-certezas – decerto um dia encontrará o amor, da mesma forma que eu o encontrei! Odiava as pessoas certas e suas mini-lamúrias – se ao menos tivéssemos nos conhecido antes... Odiava-as!
Um gosto amargo dominou-lhe a boca: pessoas certas, na hora errada, erro de cálculo. Tanto de seu amor, disperdiçado. Vida perdida, nostalgia: nunca mais o que não foi.
Faz tempo que eu não passava por aí e nem lia suas palavras. Mas você sabe, eu sou como sou e sempre acabo te revisitando. Superokei, momento confesso: eu gosto das suas palavras. Gosto do jeito que você monta as frases. Gosto do sentimento que brota no meu peito quando eu te leio. Na verdade, por mais que você duvide, eu gosto de você. Gosto mesmo, vontade de te pegar no colo, de te fazer carinho, de te pentear os cabelos. Os seus cabelos são bonitos. Eu gosto dos seus olhos. Gosto, enfim.
Você não gosta de mim; fato. Não te julgo, nem te culpo: eu não deveria ter roubado o seu homem. Tê-lo feito ser meu quando eu bem sabia que nem o queria. Tenho que admitir: sempre soube que ele era prá ser seu. Nunca, nunca meu. Eu não o amei, nem o aceitei, nunca o desejei como você o fez. Sabe, eu era menina e estava carente. Ele estava simplesmente lá. Se não fosse ele, teria sido outro a me ofertar sonhos, promessas e conforto em bandeja de latão mal acabada. Não me arrependo; a maturidade tem dessas coisas, a gente aprende a não se arrepender porque sempre cresce com os erros.
Mas ao te ler e te perceber como eu percebo, nessa minha visão ora borrada dos fatos, te percebo infeliz. Te percebo angustia pura, desejo apertado no peito, vontade de voltar a ter o que tinha, a ser o que era. Vontade de se encontrar em meio a mapas de tesouros há muito perdidos, para sempre escondidos em grutas escuras que você insiste em povoar com imagens obcenas de corpos suados se amando. Eu te pergunto, menina bonita: há quanto tempo? Há quanto tempo você não vive nem sente na pele os dedos habilidosos que um dia você lutou para voltarem a ser seus?
Eu tenho vontade de te dizer: vai ser feliz. Pega essa sua cria que você fez tentando eternizar o seu desejo mundano e busca a sua felicidade. Teimo em acreditar que você é muito para ele, em pensar que ele é rascunho dos seus sonhos – nunca arte final. Você não vai ser feliz neste pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Volta pros seus amigos, pros seus queridos, pros seus amores idos. Larga essa gente esquisita que se apóia uns nas fraquezas dos outros: que não pode se curar nunca porque a cura representa libertação e aí ninguém sabe ser sozinho. Volta pra casa, menina do campo, abandona essas areias nas quais seus pés afundam: você está pesada.
Não tenha medo do que as minhas palavras representam: não estou almejando o que é seu e nem vou voltar a almejar. Você pintou e bordou o seu conto de fadas do jeito que mais belo e poético te pareceu, mas no fundo você sempre soube que ele voltou a ser seu pois eu não o quis mais – continuo não o querendo. Me dei conta das minhas reais necessidades, e um homem incapaz de andar soozinho nunca será o que quero. Seria simplesmente impossível. Então, não encare o que digo aqui como uma tentativa de limpar o terreno para conquistar o que quer que seja.
No fundo você me conhece, e sabe que só digo o que sinto – nem mais, nem menos. E só estou dizendo tudo isso porque realmente gosto de você. Assim, de graça. Dessas suas contradições todas. Da escolha de imagens que você faz. Do lugar em que você coloca seus pontos finais, as suas reticências. Gosto do jeito que os seus cabelos caem sobre os seus ombros. Gosto de você, enfim. Claro, entendo que nunca confie em mim inteiramente. Você tem seus motivos para isso.
Mas acredite em mim quando te digo que ele é pouco prá você. Pra qualquer uma de nós.
Carinhosamente,
F.
Post by Flavia Melissa
em Tuesday, August 23, 2011 as 10:00 PM. Você não gosta de mim; fato. Não te julgo, nem te culpo: eu não deveria ter roubado o seu homem. Tê-lo feito ser meu quando eu bem sabia que nem o queria. Tenho que admitir: sempre soube que ele era prá ser seu. Nunca, nunca meu. Eu não o amei, nem o aceitei, nunca o desejei como você o fez. Sabe, eu era menina e estava carente. Ele estava simplesmente lá. Se não fosse ele, teria sido outro a me ofertar sonhos, promessas e conforto em bandeja de latão mal acabada. Não me arrependo; a maturidade tem dessas coisas, a gente aprende a não se arrepender porque sempre cresce com os erros.
Mas ao te ler e te perceber como eu percebo, nessa minha visão ora borrada dos fatos, te percebo infeliz. Te percebo angustia pura, desejo apertado no peito, vontade de voltar a ter o que tinha, a ser o que era. Vontade de se encontrar em meio a mapas de tesouros há muito perdidos, para sempre escondidos em grutas escuras que você insiste em povoar com imagens obcenas de corpos suados se amando. Eu te pergunto, menina bonita: há quanto tempo? Há quanto tempo você não vive nem sente na pele os dedos habilidosos que um dia você lutou para voltarem a ser seus?
Eu tenho vontade de te dizer: vai ser feliz. Pega essa sua cria que você fez tentando eternizar o seu desejo mundano e busca a sua felicidade. Teimo em acreditar que você é muito para ele, em pensar que ele é rascunho dos seus sonhos – nunca arte final. Você não vai ser feliz neste pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Volta pros seus amigos, pros seus queridos, pros seus amores idos. Larga essa gente esquisita que se apóia uns nas fraquezas dos outros: que não pode se curar nunca porque a cura representa libertação e aí ninguém sabe ser sozinho. Volta pra casa, menina do campo, abandona essas areias nas quais seus pés afundam: você está pesada.
Não tenha medo do que as minhas palavras representam: não estou almejando o que é seu e nem vou voltar a almejar. Você pintou e bordou o seu conto de fadas do jeito que mais belo e poético te pareceu, mas no fundo você sempre soube que ele voltou a ser seu pois eu não o quis mais – continuo não o querendo. Me dei conta das minhas reais necessidades, e um homem incapaz de andar soozinho nunca será o que quero. Seria simplesmente impossível. Então, não encare o que digo aqui como uma tentativa de limpar o terreno para conquistar o que quer que seja.
No fundo você me conhece, e sabe que só digo o que sinto – nem mais, nem menos. E só estou dizendo tudo isso porque realmente gosto de você. Assim, de graça. Dessas suas contradições todas. Da escolha de imagens que você faz. Do lugar em que você coloca seus pontos finais, as suas reticências. Gosto do jeito que os seus cabelos caem sobre os seus ombros. Gosto de você, enfim. Claro, entendo que nunca confie em mim inteiramente. Você tem seus motivos para isso.
Mas acredite em mim quando te digo que ele é pouco prá você. Pra qualquer uma de nós.
Carinhosamente,
F.
Que seja leve, ajustado. Que não demore muito a mostrar ao que veio, porque eu sempre tenho preguiça de coisa que uma hora é uma, outra hora é outra. Que não seja sempre igual. Que saiba olhar para o céu e reconhecer a poesia escondida nas estrelas, mas que reconheça a importância de ter os dois pés bem fincados no chão, porque nada que não seja aterrado é forte o suficiente para permanecer de pé por muito tempo. Que saiba voar. Que dê o conforto certo, caminho do meio entre o movimento e a aquietação, nas minhas horas de tédio de segunda-feira às duas da tarde. Que não me conforte mais do que o necessário, porque eu tenho essa tendência a me acomodar em situações que parecem agradar a todos. Que me movimente. Que me ajude a sonhar com um futuro possível, nem ilusão demais, nem de menos, que a vida sem fantasia tende a ser muito chata. Que entenda as minhas mudanças de humor e releve o que precisa ser relevado, porque mais cedo ou mais tarde vou acabar me espirrando em direções que não são minhas – que perceba que eu não faço por mal, esta é apenas uma das características que me fazem ser quem sou. Que meus defeitos não agridam demais, nem minhas qualidades ceguem seus olhos para o outro lado da moeda, que sempre existe. Que me acompanhe em minha sede infinita de saber mais sobre tudo, aceitando quase nunca o que é apenas mundano e fugaz. Que me ame, acima de tudo, de um jeito que nunca me senti amada. Que não me julgue por nunca ter realmente amado. Que me aceite, que se aceite. Amém.
Post by Flavia Melissa
em Tuesday, August 02, 2011 as 9:28 PM. 
Eu fico me perguntando se ela acordou hoje se sentindo diferente. Se, no momento em que abriu os olhos pela manhã, chegou a sentir uma brisa estranha, que não agitou mais nada a não ser os pelinhos de seu braço. Fico pensando se, quando ela se levantou da cama, lembrou de pisar primeiro com o pé direito no chão – para dar sorte. Se chegou a pentear os cabelos de um jeito diferente do que sempre fez. Será que ela sentiu saudades de alguém e pensou, “ah, amanha eu ligo, semana que vem eu encontro”? Será que se sentiu triste e tentou se convencer de que este seria um novo dia, uma eterna e infinita possibilidade de mudança e recomeço? Terá ela se sentido diferente, uma angústia contida no peito, inexplicável sensação de leveza, como se em um segundo aquilo que havia de mais sublime em si estivesse prestes a se esvair? RIP. Art is not gonna be the same without you.
Ms Winehouse & Me
My tears dry on their own
Mais da Amy
Amy, Amy, Amy
Zalon – my fellow, my guy
Pra quem gosta da Amy
Feeling better
Minha vida de acordo com Amy Winehouse
O vento bateu e eu me perdi de mim. Me perdi dos meus conceitos, tudo o que foi do antes me parece sem sentido e vago. Nada parece se encaixar. O eu, o seu, tudo isso misturado, guardado num cheiro que a brisa bateu e se esqueceu de levar. Um gosto ficou na boca. Eu queria poder querer mais.
Post by Flavia Melissa
em Tuesday, July 12, 2011 as 3:46 AM.
E se perguntarem por mim, diz que eu tô por aí, braço dado com a brisa que bate levando tudo o que é leve pra lá e prá cá. Me perguntam sobre meus planos, respondo que não os tenho. Não me lembro de quem foi que disse que se quiséssemos fazer Deus morrer de ri, bastaria contar-lhe nossos planos. Meu plano é o Tao que flui, que mostra a simplicidade como o caminho e a impermanência como cenário. Meu plano é o hoje, o que quer que eu faça dentro de cinco minutos é parte do meu plano. O futuro não me preocupa. Preocupação é densidade desnecessária; ocupação e movimento são nossas espadas de Jedi. Eu vivo, eu respiro, movimento meu corpo, procuro calar minha mente. Olho para o dia de hoje e procuro fazer meu melhor. Quando a gente tenta fazer o melhor, dá chance de coisas melhores acontecerem - pessoas melhores aparecem, as coincidências e os pequenos milagres acontecem. Os encontros se dão. Encontros, eles sim são meus planos. Meu plano é o eterno encantamento.
Post by Flavia Melissa
em Wednesday, July 06, 2011 as 10:38 PM. 
Nunca sonhei em preto e branco. Os meus sonhos são sempre muito coloridos, cheios de contrastes. Nos meus sonhos o céu é sempre luminoso, esfumaçado, quase poema. Às vezes sonho com cheiros, às vezes acordo com as narinas preenchidas pelo perfume da minha subjetividade. Quase sempre é dia. Quase nunca chove. Até queria ter o dom da pintura pra ser capaz de traduzir em pinceladas os sentimentos que me arrebatam quando sou invadida pelas lembranças oníricas do meu paraíso as três da tarde caminhando pela rua – as pessoas passam e às vezes me olham, como se reconhecessem no brilho dos meus olhos o momento preciso em que me dou conta de mim. O vento bate na minha pele como um abraço afetuoso: em alguma parte de mim eu moro, em alguma parte de mim eu de fato estou. Fecho os olhos, querendo voltar no tempo. Nunca consigo. Apenas espero pelas próximas cores.

Eu tenho sentido uma saudade danada da China. Não sei bem do quê; acho que de tudo. Do céu cor de rosa de Shanghai. Das pessoas andando nas ruas, sempre apressadas, sem nunca se trombar umas com as outras. De entrar nas lojas cheias de cacarecos e negociar o preço até do remédio prá dor de barriga. Da lua que de vez em quando se via em meio ao céu nebuloso. Do metrô indo e vindo, do vento agitando os meus cabelos quando o trem chegava na plataforma. O vento que agita os meus cabelos nas plataformas de Sampa não é igual – aqui, nada é igual.
Sinto a falta de estar em um lugar que eu conheço, mas nem tanto. Daquela sensação de virar numa esquina e tudo, tudo se perder. O que será que tem mais prá frente, logo depois daquelas mesinhas na calçada? Logo depois daquela placa que eu não entendo, daquele casal que não usa alianças mas veste camisas pólo iguaizinhas? O que será que vem depois?
Acho que é disso que eu sinto falta: de não saber o que vem depois. Claro que isso nunca se sabe – a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos, já dizia Lenon. Mas aqui tudo anda me parecendo previsível. As ruas são conhecidas demais, não atiçam as borboletas que moram dentro do meu estômago. A língua que eu ouço ser falada me permite entender tudo, ando sentindo falta daquilo que eu não entendo: o que eu não entendo eu posso criar, inventar do jeito que me é mais belo. Mais poesia e menos realidade, é disso que sinto falta.
Teve aquele dia em que eu peguei o metrô errado e fui parar em outra cidade. Aquela vez em que quase tive que dormir na rua porque a estação de metrô fechava mais cedo e eu não sabia. Aquele dia em que eu fiquei na dúvida se deveria ou não ir à casa de um cara que eu mal conhecia – e que veio a se transformar no meu melhor amigo. O dia em que eu tive uma dor de cabeça tamanho família e pessoas queridas se reuniram no meu dormitório para me ajudar – e, bem ao estilo brasileiro, tudo acabou em pizza.
Mais do que tudo, sinto falta de mim. De como eu me sentia naquelas terras. Da liberdade que eu tinha de ser o que eu quisesse, de ter o que tivesse, fazer o que fizesse. De acordar para um novo dia sem saber como ele iria terminar. Das paisagens eu nem falo – nem dos lagos, nem dos prédios, das montanhas ou das cores chamativas nas calçadas. De viver a vida como se não houvesse um amanhã. Nunca, nunca um amanhã. Nunca mais o que não fosse, para sempre, dentro de mim. Simples assim.
Acho que sempre vou guardar em mim um pedaço de tudo aquilo. Só falta descobrir onde aquilo tudo está.




